No primeiro dia acordado em Tóquio, resolvemos ir para o museu da cidade, cujo nome é "Museu Edo-Tóquio"; Edo era o nome pelo qual a cidade era conhecida durante os tempos Tokugawa, antes da revolução que fez com que o imperador passasse a mandar no país - e se mudasse para Tóquio. Pegamos um trem (depois de perguntar a um policial, que tinha em sua cabine um dos ficharioszões cheios de informações aleatórias obrigatórios, onde pegávamos o trem; a alternativa seria pegar o trem na estação ao lado do albergue e andar até a próxima, pra depois voltar em outra linha). A estação em que descemos fica ao lado, além do museu, do principal estádio de sumô, e no bairro em volta há também dúzias de academias de sumõ; o resultado é que a estação, que é relativamente grande porque costumava ser terminal da extinta Ferrovia Sobu, é abarrotada de cartazes e troféus, quase uma antessala do estádio. Descendo da estação, o efeito "antessala do estádio" continua, com dúzias de camelôs vendendo suvenires - inclusive muitos cachecóis, não apenas de sumô mas também de beisebol e futebol.
Tanto o estádio quanto o museu têm uma arquitetura evocando (quaaaase imitando, mas diferente o bastante pra não ser brega) estruturas arcaicas; um tablado coberto de luta de sumô de aldeia e um celeiro pré-histórico sobre palafitas. Só que em escala imensa; o museu tem mais de 300m de comprimento. Chega-se na entrada dele dando a volta (se você vem da estação), e a escala é curiosa pelo contraste com a rua suburbana, de casinhas e prédios baixos se alternando. Você sobe primeiro para uma praça aberta sobre uma entablatura (dentro dela fica a parte administrativa, reserva técnica, exposições temporárias, e restaurante), pra comprar os ingressos (e um micro sanduíche de café da manhã) e subir um monte de escadas rolantes até o corpo do "celeiro."
O museu começa relativamente modesto, numa salinha com pequenos artefatos; é truque. Logo depois, você está no mezanino de um galpão imenso, com direito a dois prédios em tamanho natural, um representando Edo - um teatro de Kabuki - e um representando Tóquio - um jornal do começo do século XX; entre eles, ligando dois mezaninos, está uma reprodução da Nihonbashi, a antiga ponte de madeira sobre o rio Sumida, que até hoje é o marco zero do Japão. Além desses prédios de maior impacto, o museu tem uma exposição variada, com desde obras de arte (por acaso quando fomos lá tinha a série completa das 100 vistas de Edo, de Hiroshige) a maquetes de diversos tipos de construção, desde uma casa de carregador de balde de cocô até as moradas palaciais dos grandes barões (tozama daimyo) e o antigo castelo de Chiyoda; a brincadeiras tipo "tente você levantar a carga que um carregador de água levava" (pesado pra burro) ou "pedale numa bicicleta do século XIX" (povo na era vitoriana era equilibrista de circo, certeza). Uma nota mais sombria era dada por exposições sobre o grande terremoto do Kantô ou os bombardeios americanos; num painel, você pode apertar botões, cada um correspondente a um bombardeio específico, e ir apagando o mapa de Tóquio de 1941. E a loja de suvenires tinha muita coisa que era simplesmente brinquedo de antigamente; infelizmente, acabamos não comprando na teoria de que era perto e poderíamos voltar depois. Quando estávamos quase saindo, uma repórter perguntou se queríamos dar entrevista, mas declinamos do convite.
Resolvemos ir para a exposição temporária, paga à parte, também, e era sobre a batalha de Sekigahara, que estabeleceu Tokugawa Ieyasu como mestre do Japão. Muitas armaduras, espadas, e adereços diversos dos grandes barões, muitos documentos históricos (vários dos quais contavam uma história de sinceridade, amizade desinteressada, e amor fraterno de dar inveja a Game of Thrones), e alguns painéis mostrando a batalha, seus antecedentes (a unificação do Japão pelos dois antecessores de Ieyasu) e consequências (o estabelecimento do governo central em Edo). Na saída da exposição, uma lojinha de suvenires maior que a do museu propriamente dito, mas também bem mais cara, coisa de 50 reais por um caderninho com o brasão de algum daimiyo, ou 500 por uma reprodução de 20cm de altura das armas e armadura de Ieyasu.
A essa altura, Mari já estava faminta, e fomos em direção ao museu de arte contemporânea (pegando o metrô para andar uma estação) buscando o tempo todo lugar pra comer, mas o tempo todo dizíamos "esse não, deve ter algum mais legal," então acabamos chegando ao museu, já perto da hora do fechamento, ainda com fome. O museu, com um parque ao lado, é grande - maior ainda que o de Kanazawa, e beeem maior que o de Osaca ou o Garage, sem chegar a ser do tamanho da Nova Tretyakov. Menos bonito que os outros também, tem cara de terem pedido pro arquiteto sobretudo "imponência." Como estava um dia friozinho e cinza, dia de semana sem quase ninguém no pátio externo, talvez essa impressão fosse mais forte do que num fim de semana de sol. Lembrava a ONU de alguma maneira que não sei explicar. Dentro, exposições que iam de fantásticas ("O Tempo dos Outros," com diversos artistas explorando o tema sugerido pelo título, incluindo uma exposição em que relógios dispostos ao redor da sala faziam a contagem de mortes por diversas causas ao redor da Ásia) ao "mano, se isso é arte vou mandar minhas fotos pro museu," mais a (bastante representativa) coleção permanente. Saindo do museu, vimos no mapa que daria pra ir por outra estação de metrô de volta pro albergue, atravessando o parque ao invés de pela rua, e fomos por lá. O parque tinha bem cara de parque de subúrbio, fora o detalhe de uma imensa ponte estaiada (de pedestre mesmo) cruzando um canal e uma avenida; do alto da ponte, tinha-se uma bela vista da cidade, no por do sol que demorava para acabar de sumir.
Comemos algo para enganar a fome numa barraquinha de rua ao lado do parque, e fomos para o albergue, passando antes por um mercado para comprar mantimentos (legumes são lindos e frescos, carne é caríssima) pra fazer um macarrão no albergue. No caminho, nos demos conta de que teríamos de fazer baldeação da Tokyo Subway pra Toei subway (as duas dependem do governo de Tóquio), e em Tóquio o metrô custa 7R$ e não tem baldeação grátis entre as redes, então resolvemos muquiranamente dar a volta maior pra ao invés disso chegar na JR e usar o JR Pass.
Saturday, April 23, 2016
Friday, April 22, 2016
22.4.2015 Nikko 4 a 16C, Altitude 539m
Depois dum lauto e lindo café da manhã kaiseki e uma despedida com saudade no coração do onsen, nos arrumamos e partimos pra Tóquio (não deu problema na hora de pagar com o cartão, então ficamos com uma dinheirama em cash), munidos com uns pacotes duma bala de goma, pasta de feijão, e castanha portuguesa, que era uma delícia; nossa única lembrança de Nikko, mais uns pirulitos dos três macaquinhos pra dar de presente. Depois de quase dois meses viajando e dizendo "não vamos comprar nada porque vamos ter que carregar depois," o hábito tinha se calcificado, mesmo sabendo que só teria mais uma viagem antes da volta a São Paulo. Enquanto esperávamos o trem, que só passa uma vez por hora, comentávamos como realmente Nikko se parece com uma Itaipava da vida, com a vista das serras ao longe. Ainda tentamos ver na estação da Outra companhia de estradas de ferro se o lex deles direto pra Tóquio serviria, mas o dito-cujo só sai de Nikko à tardinha, é feito pra turistas que passam o dia. Então fomos lá descer de ladinho mesmo. A descida é bonita, passa boa parte do tempo no meio do mato, e a proximidade com o mato num trem de bitola estreita e uma só via é muito maior do que num carro. De dar pra tocar nos pinheiros e bambus mesmo. Também reparamos o que não tínhamos reparado na ida, que embaixo do nome de cada estação no caminho (são umas 5) tem a altitude dela. Enfim, chegamos a Utsunomiya, cheia de cartazes da festa do morango e com uns painéis feitos por crianças de escola anotando aonde tinham visto cerejeiras e ameixeiras em flor, e pegamos o shinkansen para Tóquio, última cidade da viagem e maior metrópole do mundo.
De volta à estação Tóquio, malas na mão, fomos procurar nosso trem para o albergue. E...bem... imagine um labirinto. Chape esse labirinto de um bilhão de pessoas. Adicione a sinalização "no information like too much information" da JR.... depois de uma boa meia hora andando pra cima e pra baixo, enfim achamos, bem pra baixo (são as plataformas mais profundas da estação) a linha que procurávamos, e tivemos uma grata surpresa: alguns trens da JR em Tóquio, trens comuns tipo metrô, tem um "carro verde," que nem trens interurbanos. No caso, ele é o equivalente a um ônibus executivo, bem mais simples do que os carros verdes ou até os normais de um lex, mas só de não ficar no aperto do metrô (e em Tóquio esse aperto é tão absurdo quanto se vê no youtube) já tava valendo, e o JR pass nos deixaria usá-los até o antepenúltimo dia. Chegamos na nossa estação e no albergue, que tinha uma temática ninja - querendo dizer muitos shuriken de plástico pra tudo que é canto, e os recados que todo albergue tem com brincadeirinhas. Coisas como "um NINJA nunca deixa louça suja na pia!" O quarto tinha cara de limpo, mas um pouco de cheiro de mofo, e era minúsculo - um beliche em que Thuin mal se virava, espaço ao lado dele de uns 40cm, e uma mesinha carteira de escola. E uma luminária cuja cordinha de apagar era um shuriken. Saímos de lá à procura dum lugar para comer, e acabamos parando no restaurante nepalês de uma tiazinha, muito bom, com mesinhas com toalhas de plástico, bons pães à moda indiana e curries, e o chopp mais barato que vimos no Japão. (Kirin, infelizmente, e a Kirin ter comprado a Schincariol faz todo o sentido, mas era barato e gelado.) Voltamos pro hostel e fomos cochilar um pouco; quando Thuin acordou, descobriu o porque do cheiro de mofo: a janela do quarto dava pra parede lateral do prédio em frente, e a família do apartamento abaixo pelo visto gostava de fritura; o quarto deve ficar com a janela fechada enquanto não tem ninguém hospedado nele o tempo todo, pra não entrar a gordura. Enfim, pra gente era só fechar às seis da tarde e abrir às nove, ou horário que fosse, já que já não fazia mais frio; no dia seguinte o cheiro tinha sumido inteiramente.

Descansados e banhados (não tinha banho público luxuoso, mas os banheiros cápsula imitavam decentemente uma sauna, e a água fria era bem gelada), já era noite, e fomos conhecer a Guinza. Saltamos na própria estação Tóquio, e de lá fomos a pé, nos perdendo só umas duas ou três vezes até chegar na área realmente epoustouflante da Guinza. Que provavelmente consome metade da energia elétrica do mundo, de tanto luminoso. Prédios jóias, prédios propaganda, prédios as duas coisas juntas. Muitas e muitas lojas de departamentos; entramos em uma das mais tradicionais pra olhar o setor de comida do subsolo. Chiquérrimo, mas nos impressionou menos como apetitosidade do que o da loja da estação de Fukuoka, até porque tinha mais coisa importada e menos coisa japonesa. Saindo de lá, comemos num fast-food de tempurá, e estávamos entre os últimos clientes; aquele neon todo dorme cedo...
Thursday, April 21, 2016
21.4.2015 Nikko 4 a 14C, Altitude 594m
Acordamos em Nikko sendo chamados para o café da manhã. O café, numa salinha reservada, deixou bem claro por que a comida deliciosa do dia anterior tinha sido "uma coisinha às pressas." Café à japonesa, claro, com ovo mole, peixe assado, arroz, broto de samambaia, e outras cousicas, muitas cousicas. Depois do café, passamos o resto da manhã no banho, até sair um pouco antes de meio dia para catar um banco para tentar pegar o dinheiro do pagamento do riyokan, pra caso não desse pra pagar no cartão não ter aperto, o que eventualmente conseguimos. Nisso, andamos por boa parte do núcleo urbano de Nikko, que é, pra ser honesto, meio decepcionante pro que esperávamos. Sendo uma cidade com um patrimônio cultural da humanidade, de beleza literalmente proverbial, e a pouco mais de duas horas de Tóquio, ou três horas num trem direto mais confortável, esperávamos algo parecido com a vila da ilha Miyajima ou Ise, com uma variedade de coisas e muita coisa chique; ao invés disso, parecia mais uma cidadezinha de interior dessas pelas quais o turismo passa ao invés de adentrar, nas serras do Rio ou São Paulo. Umas lojas de suvenir bem caras, uns bares que não pareciam particularmente turísticos, um centro de visitantes bem acanhado. A estação da JR (em estilo colonial britânico) e a da outra ferrovia (parecendo casinha suíça, bem maior e com mais coisa que a da JR). O mais bonito da cidade era a profusão de rododendros plantados.
Sacado o dinheiro, fomos no Tosho-gu, o tal patrimônio da humanidade. É o templo erguido junto com a tumba de Tokugawa Yeiasu, unificador do Japão e fundador da última dinastia de xóguns. E realmente merece cada última letra do título de patrimônio cultural da humanidade. A arquitetura é chinesa, mais que japonesa, com uma talha de madeira riquíssima e telhados elaborados, só que ao invés daqueles descampados enormes de palácio chinês, os templos de Nikko ficam no meio duma "cidade" em que as ruas são marcadas por criptomérias enormes; a sensação é uma mistura de imperial e sereno, de opulência e simplicidade. Seria mais interessante ainda se não fosse a dor nas costas que impediu Thuin de subir até o túmulo propriamente dito, ao contrário das velhinhas que subiam alegres. Aqui também o cavalo do deus (no caso, ao invés da deusa do sol, o deus tutelar é o próprio espírito de Tokugawa Ieyasu) tinha sua cocheira; na plaquinha diz que o cavalo é presente australiano, além de deixar povo tranquilizado de que não, ele não passa o dia inteiro preso ali. O presente parece ser parte de uma tradição, porque também há um sino presente dos reis da Coréia e uma lanterna de ferro presente da Companhia das Índias Holandesa - lembrando que, afinal, o orixá do lugar era o fundador da dinastia que governava o país até meados do século XIX. Na cocheira também fica a famosa estátua dos três macaquinhos, não ouço não vejo não falo. O conjunto todo está sendo restaurado, assim como o castelo de Nijô, o que também foi interessante de ver; tínhamos todas as três fases (antes, durante, e depois) da restauração ali.
Saindo do Tosho-Gu, fomos em frente para buscar a única outra atração de Nikko que dava pra quem não pode pegar carro visitar - o resto são atrações naturais às quais só se chega pegando estrada. Era o jardim botânico alpino da universidade de Tóquio. Andando pela estrada-rua principal, no caminho descobrimos que tinha uma outra, que o guia não mencionava, um palacete art nouveau que pertenceu a um príncipe herdeiro da era Taishô. Mas seguimos antes pro jardim botânico, parando pra comer numa loja de conveniência (estávamos contando os centavos pra não ficar com menos dinheiro do que o necessário para pagar o riyokan, pra se o banco desse problema de novo). O jardim é modesto, bem mais modesto do que a associação com a Universidade de Tóquio faria crer. Uma casinha na entrada serve de centro de visitantes, te dá de graça o mapinha básico e vende uns mapinhas e guias mais tchuns - bem bonitinhos, mas estávamos em modo mão de vaca total, então não compramos nada. Andando pelo jardim, com plantas de frio e montanha, ele estava um pouco abandonado, mas isso o tornava até mais bonito. Parte dele acompanha o mesmo rio que passa pelo riyokan, e do outro lado podíamos ver uma série de budas à margem do rio; foi o único momento em que vimos viv'alma enquanto andávamos por ali, um par de turistas ou romeiros olhando os budas. Um belíssimo lago de plantas aquáticas diversas (todas misturadas, apesar das plaquinhas darem a entender que antes cada uma ficava no seu canto) era quase sombreado por um par de magnólias com as flores já começando a murchar, muito cheirosas... ao contrário do guia, a gente recomenda muito o jardim botânico.
De volta ao riyokan, mais banho e o jantar comme il faut. Quase tão bom quanto o de Miyajima, kaiseki, com além das muitas comidas já preparadas um fogareirozinho para fazermos nosso próprio churrasquinho de frutos do mar, bolinha de surimi de peixe com castanha, cogumelo eringui, e abóbora.

Sacado o dinheiro, fomos no Tosho-gu, o tal patrimônio da humanidade. É o templo erguido junto com a tumba de Tokugawa Yeiasu, unificador do Japão e fundador da última dinastia de xóguns. E realmente merece cada última letra do título de patrimônio cultural da humanidade. A arquitetura é chinesa, mais que japonesa, com uma talha de madeira riquíssima e telhados elaborados, só que ao invés daqueles descampados enormes de palácio chinês, os templos de Nikko ficam no meio duma "cidade" em que as ruas são marcadas por criptomérias enormes; a sensação é uma mistura de imperial e sereno, de opulência e simplicidade. Seria mais interessante ainda se não fosse a dor nas costas que impediu Thuin de subir até o túmulo propriamente dito, ao contrário das velhinhas que subiam alegres. Aqui também o cavalo do deus (no caso, ao invés da deusa do sol, o deus tutelar é o próprio espírito de Tokugawa Ieyasu) tinha sua cocheira; na plaquinha diz que o cavalo é presente australiano, além de deixar povo tranquilizado de que não, ele não passa o dia inteiro preso ali. O presente parece ser parte de uma tradição, porque também há um sino presente dos reis da Coréia e uma lanterna de ferro presente da Companhia das Índias Holandesa - lembrando que, afinal, o orixá do lugar era o fundador da dinastia que governava o país até meados do século XIX. Na cocheira também fica a famosa estátua dos três macaquinhos, não ouço não vejo não falo. O conjunto todo está sendo restaurado, assim como o castelo de Nijô, o que também foi interessante de ver; tínhamos todas as três fases (antes, durante, e depois) da restauração ali.
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| Sim, isso é um sashimi de porco |
Saindo do Tosho-Gu, fomos em frente para buscar a única outra atração de Nikko que dava pra quem não pode pegar carro visitar - o resto são atrações naturais às quais só se chega pegando estrada. Era o jardim botânico alpino da universidade de Tóquio. Andando pela estrada-rua principal, no caminho descobrimos que tinha uma outra, que o guia não mencionava, um palacete art nouveau que pertenceu a um príncipe herdeiro da era Taishô. Mas seguimos antes pro jardim botânico, parando pra comer numa loja de conveniência (estávamos contando os centavos pra não ficar com menos dinheiro do que o necessário para pagar o riyokan, pra se o banco desse problema de novo). O jardim é modesto, bem mais modesto do que a associação com a Universidade de Tóquio faria crer. Uma casinha na entrada serve de centro de visitantes, te dá de graça o mapinha básico e vende uns mapinhas e guias mais tchuns - bem bonitinhos, mas estávamos em modo mão de vaca total, então não compramos nada. Andando pelo jardim, com plantas de frio e montanha, ele estava um pouco abandonado, mas isso o tornava até mais bonito. Parte dele acompanha o mesmo rio que passa pelo riyokan, e do outro lado podíamos ver uma série de budas à margem do rio; foi o único momento em que vimos viv'alma enquanto andávamos por ali, um par de turistas ou romeiros olhando os budas. Um belíssimo lago de plantas aquáticas diversas (todas misturadas, apesar das plaquinhas darem a entender que antes cada uma ficava no seu canto) era quase sombreado por um par de magnólias com as flores já começando a murchar, muito cheirosas... ao contrário do guia, a gente recomenda muito o jardim botânico.
De volta ao riyokan, mais banho e o jantar comme il faut. Quase tão bom quanto o de Miyajima, kaiseki, com além das muitas comidas já preparadas um fogareirozinho para fazermos nosso próprio churrasquinho de frutos do mar, bolinha de surimi de peixe com castanha, cogumelo eringui, e abóbora.

Wednesday, April 20, 2016
20;04;2015 Kanazawa 17 a 24C Altitude 24m
Então, comentamos que não ia dar tempo de almoçar em Quioto, né. Pois bem, acabamos descobrindo um detalhezinho. Como o ônibus era lento, mesmo numa cidade relativamente pequena, chegamos atrasados para pegar o lex para Nagóia. Ao invés de mudarmos de planos e pegar o Hokuriku para Tóquio, deixando pra pegar as malas em Nagóia depois, resolvemos esperar. Resultado: depois da volta ao Japão toda, chegamos em Nikko atrasados.
O lex que vai de Kanazawa para Nagóia pelo plano é bem menos cênico do que o Hida pelas montanhas, mesmo com a ajuda, naquele dia, de muita neblina. Basicamente, vê-se arroz, arroz, arroz, arroz, interrompidos por aldeias, vilas, e cidadezinhas pequenas, às vezes com alguma indústria leve junto. Na chegada em Nagóia, ainda tivemos tempo de comer o estrumpfamente delicioso tonkatsu, porco à milanesa, no subsolo da estação (olhando pro relógio e praguejando se aparecia outro cliente e a garçonete falava 2s com ele, mas deu). Thuin o missô-katsu, que é a especialidade local, e Mari com um molho espesso e doce, à base de algas. De Nagóia a Tóquio, o shinkansen passou ao lado do monte Fuji, mas perdemos a imagem clássica graças à neblina. Enfim, chegamos na estação Tóquio; esta não tem os grandes espaços abertos de Osaca ou Quioto; é quase do tamanho delas, mas na base de uma profusão caótica de puxadinhos e subterrâneos. Pra nossa sorte, não tivemos que navegar muito esse caos, porque o trem que pegaríamos seria também um shinkansen, e eles estão todos agrupados num canto. Saímos da roleta só para pôr as mochilas de novo num armário, e pegamos o trem para Utsunomiya. De Tóquio até Utsunomiya, são três estações de trem-bala, mas você ainda está defintivamente dentro da mancha urbana de Tóquio; não tem intervalos com mato de mais de 15s. Em Utsunomiya, tempo contado para pegar o trem local para Nikko, só deu tempo de ver os cartazes da festa do morango. O trem local, descobrimos, subia bem inclinado, e só tinha banco de lado - e estava cheio. Uma dilícia pra Thuin, já com as costas ruins da odisséia. E uma secundarista não muito gentil inda tinha marcado seu território pondo a mochila e a pasta uma de cada lado do banco.
Chegamos em Nikko. Sem dinheiro para pagar o hotel e sem saber como faríamos, depois do problema em Kanazawa. Chovendo uma garoa fina e fria. Sabendo que estávamos bem próximos de estar atrasados para o jantar. Sem dinheiro, provavelmente, pra pegar um táxi. Resolvemos catar um banco, que não tinha na estação. Quando enfim achamos, não tirava dinheiro. Pegamos um táxi salvador e resolvemos ir até onde desse; deu justo. Chegamos, enfim no riyokan. O prédio não é particularmente bonito por fora, ao contrário do da ilha Miyajima, mas por dentro é chiquérrimo, numa mistura de estilo ocidental (ie americano) e japonês. Chegando lá, outro problema: o povo do booking havia dito que sem problemas chegar 7:30 ao invés de 7 pra janta, mas esqueceram de avisar o riyokan, que já lavava a cozinha. Primeiro parecia que passaríamos fome, mas o moço do booking, contatado no telefone, acabou conseguindo esclarecer o imbróglio, e fizeram uma janta rápida pra gente. "Uma janta rápida" já era uma delícia, bem entendido. Nosso quarto, de tatame com saleta para tirar sapatos e banheiro integrado com banheira e chuveirinho separados (ie, que dava pra fazer sua própria sauna), tinha uma varanda que dava para as corredeiras dum riozinho, com o barulho forte da corredeira cheia de água do degelo. Do outro lado do riacho, só árvores e samambaias, e só se via os outros prédios da rua esticando a cabeça. A luz mais forte era a da própria lua cheia. E fomos - claro - no onsen, que tinha até uma piscina ao ar livre para ver seu bafo fazendo fumacinha.
O lex que vai de Kanazawa para Nagóia pelo plano é bem menos cênico do que o Hida pelas montanhas, mesmo com a ajuda, naquele dia, de muita neblina. Basicamente, vê-se arroz, arroz, arroz, arroz, interrompidos por aldeias, vilas, e cidadezinhas pequenas, às vezes com alguma indústria leve junto. Na chegada em Nagóia, ainda tivemos tempo de comer o estrumpfamente delicioso tonkatsu, porco à milanesa, no subsolo da estação (olhando pro relógio e praguejando se aparecia outro cliente e a garçonete falava 2s com ele, mas deu). Thuin o missô-katsu, que é a especialidade local, e Mari com um molho espesso e doce, à base de algas. De Nagóia a Tóquio, o shinkansen passou ao lado do monte Fuji, mas perdemos a imagem clássica graças à neblina. Enfim, chegamos na estação Tóquio; esta não tem os grandes espaços abertos de Osaca ou Quioto; é quase do tamanho delas, mas na base de uma profusão caótica de puxadinhos e subterrâneos. Pra nossa sorte, não tivemos que navegar muito esse caos, porque o trem que pegaríamos seria também um shinkansen, e eles estão todos agrupados num canto. Saímos da roleta só para pôr as mochilas de novo num armário, e pegamos o trem para Utsunomiya. De Tóquio até Utsunomiya, são três estações de trem-bala, mas você ainda está defintivamente dentro da mancha urbana de Tóquio; não tem intervalos com mato de mais de 15s. Em Utsunomiya, tempo contado para pegar o trem local para Nikko, só deu tempo de ver os cartazes da festa do morango. O trem local, descobrimos, subia bem inclinado, e só tinha banco de lado - e estava cheio. Uma dilícia pra Thuin, já com as costas ruins da odisséia. E uma secundarista não muito gentil inda tinha marcado seu território pondo a mochila e a pasta uma de cada lado do banco.
Chegamos em Nikko. Sem dinheiro para pagar o hotel e sem saber como faríamos, depois do problema em Kanazawa. Chovendo uma garoa fina e fria. Sabendo que estávamos bem próximos de estar atrasados para o jantar. Sem dinheiro, provavelmente, pra pegar um táxi. Resolvemos catar um banco, que não tinha na estação. Quando enfim achamos, não tirava dinheiro. Pegamos um táxi salvador e resolvemos ir até onde desse; deu justo. Chegamos, enfim no riyokan. O prédio não é particularmente bonito por fora, ao contrário do da ilha Miyajima, mas por dentro é chiquérrimo, numa mistura de estilo ocidental (ie americano) e japonês. Chegando lá, outro problema: o povo do booking havia dito que sem problemas chegar 7:30 ao invés de 7 pra janta, mas esqueceram de avisar o riyokan, que já lavava a cozinha. Primeiro parecia que passaríamos fome, mas o moço do booking, contatado no telefone, acabou conseguindo esclarecer o imbróglio, e fizeram uma janta rápida pra gente. "Uma janta rápida" já era uma delícia, bem entendido. Nosso quarto, de tatame com saleta para tirar sapatos e banheiro integrado com banheira e chuveirinho separados (ie, que dava pra fazer sua própria sauna), tinha uma varanda que dava para as corredeiras dum riozinho, com o barulho forte da corredeira cheia de água do degelo. Do outro lado do riacho, só árvores e samambaias, e só se via os outros prédios da rua esticando a cabeça. A luz mais forte era a da própria lua cheia. E fomos - claro - no onsen, que tinha até uma piscina ao ar livre para ver seu bafo fazendo fumacinha.
Tuesday, April 19, 2016
19.4.2015 Kanazawa 18 a 24C, Altitude 24m
Apesar de termos a manhã pra ver aqueles museus todos que tínhamos listado, os dois intrépidos buscadores de lugares cada vez mais remotos resolveram ao invés disso ir pra Takaoka, uma cidadezinha perto, de manhã cedo para ver uma grande estátua do Buda; haveria tempo sobrando pra ir nos museus depois. Obviamente que não deu, né. Começou fácil, pegando o Hokuriku Shinkansen, que, recém-inaugurado, é muito mais chique que os outros shinkansen, com direito à cadeira se mexer sozinha e a uma "gran class" que não podíamos usar com o JR Pass verde e que parece primeira classe de avião. Meio desnecessário, pruma viagem que no máximo dura três horas, mézanfã. A estação shin-Takaoka, como em Osaca, não fica em Takaoka. Para chegar à estação Takaoka - no centro da cidade, enorme e tinindo de nova, lembrando a própria estação de Kanazawa, só que sem o terminal de ônibus lindo na frente (tinha um terminal, só não era lindo) - tínhamos que pegar um trem local. Este foi o maior contraste possível com o Hokuriku. Velhinho, fedido, e meio cabritex, o que não foi tão ruim porque o percurso dele inteiro não passou de 10 minutos, se tanto.
Em Takaoka, descobrimos em ambas as estações de trem, vários cartazes, tampas de bueiro, etc etc ETC, o grande orgulho local, mais do que o daibutsu ("3o maior do Japão!") é o fato de Lorde Maeda (o fundador da família que tornou Kanazawa uma potência cultural, algo como uma versão mais guerreira dos Médici) ter dormido lá uma vez, ok, ter fundado a cidade, e o capacete dele aparece em toda a parte. Nós, claro, nos perdemos nos poucos quarteirões da estação ao Buda, mas foi um se-perder até agradável, parte pela feira de sábado de antiguidades e comidinhas que velhinhos fazem em casa (Thuin comprou umeboshi). O daibutsu é menos impressionante do que, dizem, são os dois maiores, pelo menos pra nós; algumas das obras de arte sacra na capela na sua base eram bem mais interessantes, inclusive uns pergaminhos e um móbile indiano fantástico. Mas vimos no mapa que ao lado do daibutsu estava o parque sobre o antigo castelo, então lá fomos descobrir que, sem as grandes ambições paisagísticas de Kanazawa ou um torreão reconstruído, o parque era ainda muito bonito, com cerejeiras e camélias largando as flores na água dos fossos. E a visita ao parque, claro, demorou muito mais do que pensávamos que demoraria. Resultado: quanto chegou a hora de voltar para Kanazawa, já era hora de fechar dos museus, e no mercado central, que visitamos, vários dos quiosques também já estavam fechando as portas. Ainda deu para passear um pouco (e salivar muito nos legumes e frutos do mar, alguns de ambos dos quais não conseguimos reconhecer e tudo bonito), e subir para comer a janta cedo num dos restaurantes do mezanino. Este, bem apertado (o pé direito do mezanino do mercado central deve ser de menos de 2,20m), era especializado em sobá, e comemos uns sobás deliciosos, um de carne de Hida e outro de legumes caipiras.
E enfim, nesse dia um pouco anticlimático depois da apoteose do dia anterior, seguimos de volta para o banho público com água marinha, pra encerrar cancelando a visita a Katsura (porque nos demos conta de que não daria tempo para passar lá em Quioto antes de ir a Nikko) e o almoço no restaurante de comida kaiseki francesa (idem). A moça da agência imperial agradeceu muito o cancelamento ao telefone; nos perguntamos se muita gente simplesmente dá bolo ou se era efusividade natural mesmo.
Em Takaoka, descobrimos em ambas as estações de trem, vários cartazes, tampas de bueiro, etc etc ETC, o grande orgulho local, mais do que o daibutsu ("3o maior do Japão!") é o fato de Lorde Maeda (o fundador da família que tornou Kanazawa uma potência cultural, algo como uma versão mais guerreira dos Médici) ter dormido lá uma vez, ok, ter fundado a cidade, e o capacete dele aparece em toda a parte. Nós, claro, nos perdemos nos poucos quarteirões da estação ao Buda, mas foi um se-perder até agradável, parte pela feira de sábado de antiguidades e comidinhas que velhinhos fazem em casa (Thuin comprou umeboshi). O daibutsu é menos impressionante do que, dizem, são os dois maiores, pelo menos pra nós; algumas das obras de arte sacra na capela na sua base eram bem mais interessantes, inclusive uns pergaminhos e um móbile indiano fantástico. Mas vimos no mapa que ao lado do daibutsu estava o parque sobre o antigo castelo, então lá fomos descobrir que, sem as grandes ambições paisagísticas de Kanazawa ou um torreão reconstruído, o parque era ainda muito bonito, com cerejeiras e camélias largando as flores na água dos fossos. E a visita ao parque, claro, demorou muito mais do que pensávamos que demoraria. Resultado: quanto chegou a hora de voltar para Kanazawa, já era hora de fechar dos museus, e no mercado central, que visitamos, vários dos quiosques também já estavam fechando as portas. Ainda deu para passear um pouco (e salivar muito nos legumes e frutos do mar, alguns de ambos dos quais não conseguimos reconhecer e tudo bonito), e subir para comer a janta cedo num dos restaurantes do mezanino. Este, bem apertado (o pé direito do mezanino do mercado central deve ser de menos de 2,20m), era especializado em sobá, e comemos uns sobás deliciosos, um de carne de Hida e outro de legumes caipiras.
E enfim, nesse dia um pouco anticlimático depois da apoteose do dia anterior, seguimos de volta para o banho público com água marinha, pra encerrar cancelando a visita a Katsura (porque nos demos conta de que não daria tempo para passar lá em Quioto antes de ir a Nikko) e o almoço no restaurante de comida kaiseki francesa (idem). A moça da agência imperial agradeceu muito o cancelamento ao telefone; nos perguntamos se muita gente simplesmente dá bolo ou se era efusividade natural mesmo.
Monday, April 18, 2016
18.4.2015 Kanazawa, 5 a 21C, Altitude 24m
Amanhecidamente, saímos a procurar um lugar de café da manhã e... mais uma padaria de cadeia foi o resultado. Com a dupla diferença de que esta A) tinha nome remetendo à Alemanha (não em alemão - "German Bakery") ao invés de em francês, e B) era muito boa mesmo. Comemos um muffin de matchá com gotas de chocolate, um pão com grãos de soja e queijo, e um quase-pão de chocolate, mais café bastante razoável, e mesmo assim não saiu tão caro. A padaria, aparentemente, era parte duma rede dividida em três níveis; ela era o melhor, o 2o tinha nome francês, o 3o em inglês. Não é piada, juro. De lá, fomos a pé mesmo rumo ao parque, o Kenroku-en, considerado um dos "três jardins mais bonitos" pela lista em vigor desde o começo do século XX (ok, um pouco mais nova do que a das sete maravilhas de 140 a.C. ). Pelo caminho, fomos reparando num pequeno detalhe: tem MUITA obra de arte na rua em Kanazawa. Mas muita, muita mesmo. Também chegamos numa entrada pro chão em que estava escrito "subway" e nos perguntamos "ué, como assim, tem metrô aqui e o guia não avisou." Mas era só, literalmente, uma rua subterrânea, imaginamos que pra quando neva muito. E sim, dentro dela mais arte.
No caminho para o Kenrokuen, passamos por ainda um par de praças, e um centro cultural tinindo de novo na frente do antigo castelo, e Mari comeu um sorvete de flor de cerejeira com floquinhos de folha de ouro. O próprio Kenrokuen... bem, além de sem fotos, acho que o blogue também vai ficar sem uma descrição adequada, simplesmente porque ela é difícil. É talvez o parque mais bonito que qualquer um dos dois tenha visto. É um jardim senhorial à antiga, sem gramados ingleses pra se refestelar (o nobre tinha um lacaio de almofadinha pra sentar no chão de terra quando quisesse, e de qualquer jeito o espaço não é tão grande). Quase literalmente em qualquer posição que se olhasse, de qualquer ponto do jardim, belíssimo. OK, com a exceção das lujinhas de bricabraque. Atendendo a sensibilidades plebéias, tem uns espaços para piquenique - tablados com esteiras de palha em volta dumas lixeiras simples - mas resolvemos experimentar a comida do restaurantezinho, de madeira sentando em tatame, e com a surpresa duma bela vista da cidade toda, até as montanhas no fundo (o Kenrokuen fica sobre o mesmo morrote em que se sentava o castelo, e o restaurante é na bordinha do parque), onde comemos uns ramen vegetarianos com legumes caipiras (ie nem adianta falar o nome, porque só tem lá nos arredores mesmo). Anexo ao Kenrokuen, estava também o museu de artes tradicionais, que também serve de loja, e cuja definição de "tradicional" inclui coisas hi-tech, desde que feitas a mão, como uns xales de tecido sintético ultrafino e macio, mas também muita coisa, digamos, mais tradicionalmente tradicional - laca, cerâmica, ouriversaria... Quase tudo comprável, se você tivesse muita grana, e lindo.
Saindo do deslumbramento do Kenrokuen, atravessamos a ponte para entrar no castelo, que hoje também é um parque. Este, ao contrário dos muitos castelos reconstruídos em concreto armado Japão afora (como o de Osaca) está sendo laboriosamente construído pelos métodos tradicionais. Ou melhor, parcialmente reconstruído, porque no pedaço onde se erguia o donjon hoje é o jardim botânico da universidade de kanazawa, e ninguém quer arrancar fora o jardim botânico. O outro lado do parque do castelo não ser a jóia que é o Kenrokuen é que é mais amplo, com bastante área pra se fazer um piquenique. O problema é que a grama era aparada bem alta (ou era uma grama baixa não aparada, pode ser também) e estava húmida e fria, então achamos um tablado de madeira próximo ao antigo paiol para sentar e beber uma garrafa de saquê. Enquanto sentávamos e olhávamos em volta, vimos duas águias que se esbatiam, ou dançavam, ou sabe-se lá quê, no ar; depois de umas dez mil tentativas, inclusive conseguimos tirar uma foto delas passando sobre o castelo.
Descendo pelo que já foi um portãozinho lateral, andamos um pouco mais (Thuin deitando dessa vez no gramado da praça em frente) e fomos lá para o museu de arte contemporânea do século XXI - o maior de um grupo de uma meia dúzia de museus, nenhum muito pequeno, agrupado um pouco a leste do castelo e do Kenrokuen, e um dos principais motivos de termos ido parar lá na costa do mar do Japão; não fomos nem no museu prefeitural (estadual) de arte, nem no museu histórico, nem no museu da folha de ouro, nem no museu de arte (outro museu de arte), nem no museu do folclore, nem no de teatro nô, nem no de literatura moderna, nem no museu Honda (nada a ver com a montadora). Nem na sala de concerto. Contei que a cidade não chega a meio milhão de habitantes, né.
O museu, apesar de ser de arte contemporânea e do século XXI, é um prédio resolutamente moderno, que não faria feio perto duma obra do Corbusier, um disco branco com cubos igualmente brancos saindo dele, compensados por cubos de espaço vazados nele. Dentro, demos o azar de pegar boa parte das salas em montagem, de uma exposição que se iniciaria no dia em que chegássemos em Tóquio. Mas a exposição permanente (incluindo a "piscina" de acrílico pra brincar de tirar foto "debaixo d'água") era interessante, e havia também uma exposição sobre a reconstrução das áreas atingidas pelo grande terremoto do Tohoku e pelo tsunami, incluindo uma instalação que reproduzia os abrigos temporários com privacidade extra criados pelo Shigeru Ban pros desabrigados.
Na saída do museu, já à noitinha, andamos um pouco pelos arredores, por uma pracinha bonita em que já despontavam uns rododendros aqui e ali, e voltamos pro hotel (e pro onsen) de novo. Mais à noite, fomos à procura de um cozido, que era o prato "de pobre" tradicional da área (o prato de rico, com o nome que soa engraçado pra ouvidos portugueses de cozinha kaga, era muito caro e similar ao kaiseki quiota). Andando em volta, pelo meio das multidões duma sexta à noite, acabamos não achando nenhum que parecesse bom; compramos, ao invés disso, uns guioza para comer no hotel. (Que estavam, sim, muito bons.) E ir tomar banho de novo...
No caminho para o Kenrokuen, passamos por ainda um par de praças, e um centro cultural tinindo de novo na frente do antigo castelo, e Mari comeu um sorvete de flor de cerejeira com floquinhos de folha de ouro. O próprio Kenrokuen... bem, além de sem fotos, acho que o blogue também vai ficar sem uma descrição adequada, simplesmente porque ela é difícil. É talvez o parque mais bonito que qualquer um dos dois tenha visto. É um jardim senhorial à antiga, sem gramados ingleses pra se refestelar (o nobre tinha um lacaio de almofadinha pra sentar no chão de terra quando quisesse, e de qualquer jeito o espaço não é tão grande). Quase literalmente em qualquer posição que se olhasse, de qualquer ponto do jardim, belíssimo. OK, com a exceção das lujinhas de bricabraque. Atendendo a sensibilidades plebéias, tem uns espaços para piquenique - tablados com esteiras de palha em volta dumas lixeiras simples - mas resolvemos experimentar a comida do restaurantezinho, de madeira sentando em tatame, e com a surpresa duma bela vista da cidade toda, até as montanhas no fundo (o Kenrokuen fica sobre o mesmo morrote em que se sentava o castelo, e o restaurante é na bordinha do parque), onde comemos uns ramen vegetarianos com legumes caipiras (ie nem adianta falar o nome, porque só tem lá nos arredores mesmo). Anexo ao Kenrokuen, estava também o museu de artes tradicionais, que também serve de loja, e cuja definição de "tradicional" inclui coisas hi-tech, desde que feitas a mão, como uns xales de tecido sintético ultrafino e macio, mas também muita coisa, digamos, mais tradicionalmente tradicional - laca, cerâmica, ouriversaria... Quase tudo comprável, se você tivesse muita grana, e lindo.
Saindo do deslumbramento do Kenrokuen, atravessamos a ponte para entrar no castelo, que hoje também é um parque. Este, ao contrário dos muitos castelos reconstruídos em concreto armado Japão afora (como o de Osaca) está sendo laboriosamente construído pelos métodos tradicionais. Ou melhor, parcialmente reconstruído, porque no pedaço onde se erguia o donjon hoje é o jardim botânico da universidade de kanazawa, e ninguém quer arrancar fora o jardim botânico. O outro lado do parque do castelo não ser a jóia que é o Kenrokuen é que é mais amplo, com bastante área pra se fazer um piquenique. O problema é que a grama era aparada bem alta (ou era uma grama baixa não aparada, pode ser também) e estava húmida e fria, então achamos um tablado de madeira próximo ao antigo paiol para sentar e beber uma garrafa de saquê. Enquanto sentávamos e olhávamos em volta, vimos duas águias que se esbatiam, ou dançavam, ou sabe-se lá quê, no ar; depois de umas dez mil tentativas, inclusive conseguimos tirar uma foto delas passando sobre o castelo.
Descendo pelo que já foi um portãozinho lateral, andamos um pouco mais (Thuin deitando dessa vez no gramado da praça em frente) e fomos lá para o museu de arte contemporânea do século XXI - o maior de um grupo de uma meia dúzia de museus, nenhum muito pequeno, agrupado um pouco a leste do castelo e do Kenrokuen, e um dos principais motivos de termos ido parar lá na costa do mar do Japão; não fomos nem no museu prefeitural (estadual) de arte, nem no museu histórico, nem no museu da folha de ouro, nem no museu de arte (outro museu de arte), nem no museu do folclore, nem no de teatro nô, nem no de literatura moderna, nem no museu Honda (nada a ver com a montadora). Nem na sala de concerto. Contei que a cidade não chega a meio milhão de habitantes, né.
O museu, apesar de ser de arte contemporânea e do século XXI, é um prédio resolutamente moderno, que não faria feio perto duma obra do Corbusier, um disco branco com cubos igualmente brancos saindo dele, compensados por cubos de espaço vazados nele. Dentro, demos o azar de pegar boa parte das salas em montagem, de uma exposição que se iniciaria no dia em que chegássemos em Tóquio. Mas a exposição permanente (incluindo a "piscina" de acrílico pra brincar de tirar foto "debaixo d'água") era interessante, e havia também uma exposição sobre a reconstrução das áreas atingidas pelo grande terremoto do Tohoku e pelo tsunami, incluindo uma instalação que reproduzia os abrigos temporários com privacidade extra criados pelo Shigeru Ban pros desabrigados.
Na saída do museu, já à noitinha, andamos um pouco pelos arredores, por uma pracinha bonita em que já despontavam uns rododendros aqui e ali, e voltamos pro hotel (e pro onsen) de novo. Mais à noite, fomos à procura de um cozido, que era o prato "de pobre" tradicional da área (o prato de rico, com o nome que soa engraçado pra ouvidos portugueses de cozinha kaga, era muito caro e similar ao kaiseki quiota). Andando em volta, pelo meio das multidões duma sexta à noite, acabamos não achando nenhum que parecesse bom; compramos, ao invés disso, uns guioza para comer no hotel. (Que estavam, sim, muito bons.) E ir tomar banho de novo...
Sunday, April 17, 2016
17.4.2015 Shirakawa-Go, -4 a 6C,
Acordamos cedo, pela dupla obrigação de ter que viajar relativamente cedo e do café da manhã. Neste, a dona da pousada resolveu que tinha que explicar que era pra descascar o ovo cozido. E achou que não tínhamos entendido. E os chineses do lado foram explicar também. Gente, tá. Ovo. Sei. Comem disso na minha terra.
A aldeia era tão desbundante de dia claro quanto à tardinha, mas por motivos de furto não tem foto (mais quando chegarmos a Tóquio). As construções mais recentes (mas ainda todas em madeira, quando muito um reboco) eram, realmente, tudo lujinha. A ponte de pedestres, vazia na madrugada, cheíssima de gente que tinha acordado muito mais cedo que a gente e ido de ônibus pra fazer bate-volta desde Takayama, ou até mais cedo ainda e desde Nagóia. Compramos os bilhetes do ônibus de volta, sem fila já que tava todo mundo chegando, e sem problema já que íamos embora no meio da tarde e o povo do bate-volta só voltaria ao anoitecer.
Do lado de lá do rio, um conjunto de casas não é nem pousada nem lujinha, mas museu - da própria Shirakawa-Go, e da vida e do trabalho de antigamente nas montanhas do Chubu; não sei se todo mundo acharia interessante, mas nós achamos. Numa delas, que pertenceu a um cacique, pode-se inclusive subir para o telhado, que é metade do volume da casa e onde eram secos os fios de seda, que era a principal indústria da área. Noutra, cartazes e um vídeo explicavam sobre como é (ainda hoje) o mutirão para se consertar o imenso telhado de sapê, e de quebra deixam claro por que não rola manter casas dessas como casa privada hoje em dia; são umas 100 pessoas pra consertar um telhado, e as famílias não têm mais 20, 40 membros adultos que nem antigamente. E também explicavam por que não tem uma mísera lixeira, nem em restaurantes, pela cidade: sem tanta gente pra fazer manutenção dos telhados, você não quer que vida selvagem seja atraída.
O passeio pelo "museu" também serviu para darmos uma última despedida à neve; como na Rússia, alto assim nos alpes japoneses abril ainda é degelo mais que primavera. Nas montanhas em volta, faias ainda secas também faziam lembrar a Rússia. Enfim, com dor no coração nos aprontamos para ir embora, demos o bentô de Matsusaka para a dona da pousada para jogar no lixo por nós, e pegamos o ônibus. Em Takayama, já que tínhamos esquecido a bolsa dos remédios, nos dividimos: Thuin foi direto para Kanazawa, para ir direto pro onsen do hotel, e Mari foi para Nagóia pegar a bolsa. Mari inda teve que correr: o horário do trem era casado com o do ônibus vindo de Shirakawa-Go. Enquanto esperava o trem, Thuin inda comprou um tubo de carne em conserva achando que era bentô, ou seja, nenhum dos dois almoçou. Thuin inda fez um lanche saltando do trem em Toyama para pegar o próximo Shinkansen (recém-aberto, em 14 de março) até Kanazawa. Ter JR pass era lindo.
Em Kanazawa a estação é comum (se mais espaçosa que a média) por dentro, mas a entrada, que também é um terminal de ônibus, é linda, lembrando uma espécie de Torii hi-tech, de aço e vidro; o correto seria dizer que o terminal de ônibus urbano da estação é lindo, mais do que a estação em si. No hotel, Thuin tentou pagar o hotel e teve a desagradável surpresa de que o cartão estava bloqueado. Tenta o débito. Também bloqueado. OK. Sai e tenta sacar dinheiro num atm. Bloqueado. Procura orelhão para ligar pro Banco do Brasil. Não tem orelhão. Pede carregador emprestado, envergonhado, pra moça do hotel, e liga meio inclinado com o celular conectado na tomada da faxineira. "Senhor, seu cartão não foi bloqueado." Tá, mas então por que não consigo passar ele. "Não sabemos. Tente novamente." E assim, e com muitos "aguarde horas ouvindo a musiquinha dos smurfs ou pour Elise," enquanto as costas iam ficando pior e pior, por mais umas três horas e meia, até que finalmente alguém (com sotaque potiguar, acho) descobriu o problema: o banco impõe ao uso do cartão de débito, quando fora do país, o limite do crédito, mesmo que haja mais dinheiro na conta. "Se o senhor pagar agora, estará resolvido até as 10h da noite." No Brasil. 10 da manhã. Albergues de sem teto em Kanazawa, procurar. "Se o senhor pagar na agência, vira na hora." A agência. Que fica em outra cidade e já fechou. Mais uma meia hora e finalmente a informação: com esse outro número de telefone (a conta, eventualmente, foi de mil reais) dá pra pagar e ser creditado na hora, ao contrário da internet ou do telefone comum. Bem, demora uma meia hora. Quando finalmente a conta foi paga, Mari já tinha voltado de Nagóia, e o tempo no Onsen melhorando da dor tinha virado tempo torto numa cadeira de café. (E sem saber se ia dar pra pagar o café e o muffin).
Enfim. Direto pro onsen, ou melhor, pro banho (tecnicamente falando, "onsen" é só quando a água é direto da fonte térmica; neste hotel era água do mar aquecida - pra gente, melhor ainda), ficar fazendo choque térmico até andar direito de novo. Depois dumas horas disso, saímos pra procurar um lugar pra comer. Como não havia exatamente condições de andar muito, tinha que ser no quarteirão do hotel (o próprio serviço de quarto era uns sanduíches de pão de miga sobrefaturados). Acabamos entrando num lugar de espetinho que, se bem longe da delícia da barraquinha de Fukuoka, era bastante bom (pra não dizer que só comemos espetinho, tinha uma boa salada de acelga e repolho roxo, com refill grátish), e que era meio restaurante meio bar, com chopp gelado e um grupo de adolescentes de cara vermelha numa salinha lateral. O que doeu um pouco foi que a decoração era baseada nas referências do remoto período showá, onde moravam nossas mamães... que durou até 90.
A aldeia era tão desbundante de dia claro quanto à tardinha, mas por motivos de furto não tem foto (mais quando chegarmos a Tóquio). As construções mais recentes (mas ainda todas em madeira, quando muito um reboco) eram, realmente, tudo lujinha. A ponte de pedestres, vazia na madrugada, cheíssima de gente que tinha acordado muito mais cedo que a gente e ido de ônibus pra fazer bate-volta desde Takayama, ou até mais cedo ainda e desde Nagóia. Compramos os bilhetes do ônibus de volta, sem fila já que tava todo mundo chegando, e sem problema já que íamos embora no meio da tarde e o povo do bate-volta só voltaria ao anoitecer.
Do lado de lá do rio, um conjunto de casas não é nem pousada nem lujinha, mas museu - da própria Shirakawa-Go, e da vida e do trabalho de antigamente nas montanhas do Chubu; não sei se todo mundo acharia interessante, mas nós achamos. Numa delas, que pertenceu a um cacique, pode-se inclusive subir para o telhado, que é metade do volume da casa e onde eram secos os fios de seda, que era a principal indústria da área. Noutra, cartazes e um vídeo explicavam sobre como é (ainda hoje) o mutirão para se consertar o imenso telhado de sapê, e de quebra deixam claro por que não rola manter casas dessas como casa privada hoje em dia; são umas 100 pessoas pra consertar um telhado, e as famílias não têm mais 20, 40 membros adultos que nem antigamente. E também explicavam por que não tem uma mísera lixeira, nem em restaurantes, pela cidade: sem tanta gente pra fazer manutenção dos telhados, você não quer que vida selvagem seja atraída.
O passeio pelo "museu" também serviu para darmos uma última despedida à neve; como na Rússia, alto assim nos alpes japoneses abril ainda é degelo mais que primavera. Nas montanhas em volta, faias ainda secas também faziam lembrar a Rússia. Enfim, com dor no coração nos aprontamos para ir embora, demos o bentô de Matsusaka para a dona da pousada para jogar no lixo por nós, e pegamos o ônibus. Em Takayama, já que tínhamos esquecido a bolsa dos remédios, nos dividimos: Thuin foi direto para Kanazawa, para ir direto pro onsen do hotel, e Mari foi para Nagóia pegar a bolsa. Mari inda teve que correr: o horário do trem era casado com o do ônibus vindo de Shirakawa-Go. Enquanto esperava o trem, Thuin inda comprou um tubo de carne em conserva achando que era bentô, ou seja, nenhum dos dois almoçou. Thuin inda fez um lanche saltando do trem em Toyama para pegar o próximo Shinkansen (recém-aberto, em 14 de março) até Kanazawa. Ter JR pass era lindo.
Em Kanazawa a estação é comum (se mais espaçosa que a média) por dentro, mas a entrada, que também é um terminal de ônibus, é linda, lembrando uma espécie de Torii hi-tech, de aço e vidro; o correto seria dizer que o terminal de ônibus urbano da estação é lindo, mais do que a estação em si. No hotel, Thuin tentou pagar o hotel e teve a desagradável surpresa de que o cartão estava bloqueado. Tenta o débito. Também bloqueado. OK. Sai e tenta sacar dinheiro num atm. Bloqueado. Procura orelhão para ligar pro Banco do Brasil. Não tem orelhão. Pede carregador emprestado, envergonhado, pra moça do hotel, e liga meio inclinado com o celular conectado na tomada da faxineira. "Senhor, seu cartão não foi bloqueado." Tá, mas então por que não consigo passar ele. "Não sabemos. Tente novamente." E assim, e com muitos "aguarde horas ouvindo a musiquinha dos smurfs ou pour Elise," enquanto as costas iam ficando pior e pior, por mais umas três horas e meia, até que finalmente alguém (com sotaque potiguar, acho) descobriu o problema: o banco impõe ao uso do cartão de débito, quando fora do país, o limite do crédito, mesmo que haja mais dinheiro na conta. "Se o senhor pagar agora, estará resolvido até as 10h da noite." No Brasil. 10 da manhã. Albergues de sem teto em Kanazawa, procurar. "Se o senhor pagar na agência, vira na hora." A agência. Que fica em outra cidade e já fechou. Mais uma meia hora e finalmente a informação: com esse outro número de telefone (a conta, eventualmente, foi de mil reais) dá pra pagar e ser creditado na hora, ao contrário da internet ou do telefone comum. Bem, demora uma meia hora. Quando finalmente a conta foi paga, Mari já tinha voltado de Nagóia, e o tempo no Onsen melhorando da dor tinha virado tempo torto numa cadeira de café. (E sem saber se ia dar pra pagar o café e o muffin).
Enfim. Direto pro onsen, ou melhor, pro banho (tecnicamente falando, "onsen" é só quando a água é direto da fonte térmica; neste hotel era água do mar aquecida - pra gente, melhor ainda), ficar fazendo choque térmico até andar direito de novo. Depois dumas horas disso, saímos pra procurar um lugar pra comer. Como não havia exatamente condições de andar muito, tinha que ser no quarteirão do hotel (o próprio serviço de quarto era uns sanduíches de pão de miga sobrefaturados). Acabamos entrando num lugar de espetinho que, se bem longe da delícia da barraquinha de Fukuoka, era bastante bom (pra não dizer que só comemos espetinho, tinha uma boa salada de acelga e repolho roxo, com refill grátish), e que era meio restaurante meio bar, com chopp gelado e um grupo de adolescentes de cara vermelha numa salinha lateral. O que doeu um pouco foi que a decoração era baseada nas referências do remoto período showá, onde moravam nossas mamães... que durou até 90.
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