Wednesday, April 6, 2016

Introdução aos trens japoneses


O saguão da estação Quioto
A imensa maioria dos trens japoneses, e quase todos os que utilizamos, pertence a um grupo de companhias chamado JR (djee-áa), que se comunicam entre si mas são independentes. São, todas elas, oriundas da fragmentação e privatização da companhia nacional de estradas de ferro; duas não foram privatizadas, as que servem as áreas menos densas e povoadas. As que foram privatizadas, o foram de modo bem diferente das companhias públicas privatizadas no Brasil ou na Inglaterra; de maneira extremamente fragmentária (nenhum ente conseguiu mais de 3% das ações de início, ou 8% hoje), com os funcionários da casa mantidos. O resultado é que ainda hoje as companhias JR se comportam como, e são chamadas de pelos japoneses comum, companhias públicas. E como continuam se coordenando, são elas que oferecem o JR Pass, que compramos e que dá a estrangeiros a possibilidade de fazer quantas viagens quiser em toda a rede de todas elas quanto tempo quiser, por uma, duas, ou três semanas. Sim, se quiséssemos poderíamos ter passado literalmente as três semanas de um trem pro outro, sem pagar nada a mais por isso.
As plataformas da estação Osaca-Central
Há também uma miríade de companhias privadas de todo tipo e tamanho, desde companhias que se rivalizam com uma das JRs menores até companhias que têm uma única linha com três ou quatro trens correndo nela. Mas essa variedade enorme (e a variedade de bitolas - a JR é toda de bitola estreita fora os trens-bala, de bitola padrão, mas as redes menores têm diversas outras) não impediu que, sob a influência da(s) JR, os tipos de serviços oferecidos por todas elas se padronizassem em quatro classes:
  • Trens locais, iguais ao metrô em áreas metropolitanas e com um pouco mais de cadeiras e menos espaço aberto em áreas rurais, parando a cada 800-1600m em metrópoles e a cada 2-5km no campo. Em tamanho, vão desde litorinas em áreas mais remotas até trens de 14 carros em Tóquio. 
Uma litorina diesel na península de Ise

  • Trens rápidos, distintos dos locais basicamente por parar menos (a cada duas ou quatro estações) e, no caso dos serviços rurais, por ter num canto do vagão um banheiro, geralmente com privada turca. 
O interior de um trem rápido rural

  • Expressos limitados, ou Lex, com cadeiras semelhantes às de um avião mas bem melhores - Thuin, que tem 1,82 de altura e 120kg, se sentia confortável nelas - que podem ser rodadas 180 graus, e duas classes de serviço (a primeira classe tem cadeiras melhores ainda), correndo a velocidades de até 160 por hora quando o traçado deixa, e geralmente com máquinas de comida e refrigerante no intervalo entre os vagões. Têm de 4 a 12 carros de comprimento, geralmente, e param a cada 15-50km. Têm banheiro com privada turca, banheiro com privada ocidental, toucador, e mictório (este, sem porta com tranca - do corredor, dá pra ver as costas do cidadão pelo vidro da porta simples.
O interior de um lex "wide view."

  • Shinkansen (o nome quer dizer literalmente "novo trem expresso," mas a JR traduz pro inglês como "superexpresso"), com 8 ou 16 carros, com o mesmo nível de conforto do lex, mas uma fileira a mais de poltronas por conta da bitola mais larga. O padrão de estações dos shinkansen paradores é exatamente o mesmo dos lex; isso porque onde foi construído o trem-bala, expressos nas linhas tradicionais foram desativados. Os serviços diretos de tav param bastante menos; no Tocaidô, o serviço que leva o nome da antiga estrada real e vai de Osaca a Tóquio, são cinco estações em 570km para o serviço mais rápido - duas na RM de Osaca, Nagóia, e duas na RM de Tóquio. 
Um parador ("kodama," aqueles bichinhos fofos do princesa mononoke, é o nome do serviço)

A maior parte da rede está eletrificada, mas ainda tem trechos sem eletricidade, e trens que percorrem esses trechos são a diesel, mesmo que a maior parte do seu percurso seja por trechos eletrificados. Não pegamos nenhum trem com locomotiva; mesmo os diesel eram TUDs, trens como os de metrô com força motriz e passageiros em mais de um vagão. Pode-se ver, misturados com os trens de passageiros, diversos trens de carga, a maioria relativamente curto (10-30 vagões) e carregando principalmente contêineres. 
Não pise na faixa amarela

Todos os maquinistas e condutores se vestem com uniformes meio militares, com luvas muito brancas. São feitas sinalizações com códigos manuais sempre que o trem vai partir, mesmo em rotas com sistemas de sinalização avançados e operação por computador. O sinal de que o trem vai partir vai dum hoom hoom meio nostálgico nas litorinas a um prreeeeeeeeeeeeee quase insuportável dos shinkansen. Bem, tem que manter o record de zero acidentes fatais em toda a rede de trem-bala, se o preço a pagar por isso é uns tímpanos estourados...
Estação Osaca-Central - o teto cobre tanto o mezanino que faz as vezes de saguão quanto as plataformas

A maioria das estações secundárias, se muito limpas (como quase tudo no Japão), são bastante simples. Mesmo estações secundárias do shinkansen têm teto de telha de cimento (que não cobre tudo) e chão de plurigoma, Propaganda é onipresente; as passarelas ligando as plataformas não têm vista nenhuma porque são corredores de cartazes de propaganda. A exceção é a linha hokuriku, a mais nova do shinkansen, inaugurada em março de 2015, que tem estações luxuosas. Estações maiores podem ou não ser também simples, mas quase sempre têm uma loja de departamentos integrada. O que é, inclusive, grande parte do segredo do sucesso das ferrovias japonesas: elas investem pesado em imóveis valorizados pela passagem do trem.
Estação Ueno (em Tóquio), vista do museu de história natural

E tem que se falar de sucesso: o shinkansen carrega mais gente do que o total de trens-bala do resto do mundo. A divisão de Tóquio da JR Leste carrega mais passageiros E mais passageiros-km do que a SNCF francesa ou a Deutsche Bahn alemã. O tocaidô tem uma frequência quase de metrô ligando Osaca a Tóquio, coisa de 3 a 5 minutos de intervalo no rush. Bem, de um metrô um pouco caro: de Osaca a Tóquio, sem promoção, paga-se 8700 ienes (350R$) pela passagem, mais 4800 (150) por um assento não marcado ou 5700 por um marcado.  Sim, a estrutura é meio bizarra; compra-se a passagem e o assento como valores separados.
A classe verde no recém-inaugurado shinkansen Hokuriku. Tsurugi é o nome do serviço (parador local), 719 o número da viagem

6.4.2015 Fukuoka, 12 a 16C Altitude 9m



Alá a ciclovia
Nosso primeiro alvorecer na terra do sol nascente, com o perdão do clichê (aliás não é só clichê, é a tradução literal do nome do país mesmo), numa cidade que pode alegar que é onde ela nasceu (o documento mais antigo registrando algo por escrito no Japão foi achado numa escavação num subúrbio de Fukuoka). Tínhamos alguns pontos pra procurar (museu de arte asiática, museu nacional- Kyushu, museu regional de Fukuoka). Mas antes, café. Atravessamos a praça para a estação, e descemos à loja de departamentos de comida no subsolo. A variedade e qualidade de comida era bastante impressionante mas nesse momento só passeamos; mais acima, no quiosque de marmita ferroviária (ekiben), compramos nosso "brunch," que comemos no jardinzinho no topo da estação (que também continha um trenzinho de brinquedo pra crianças andarem e uma capela dedicada ao deus dos caminhos de ferro). E um mirante, já que "no topo da estação" significa "no topo da loja de departamentos de 10 andares em cima da estação."

Devidamente alimentados, fomos passear pela cidade, na vaga direção do museu de arte asiática; a ideia não era chegar em linha reta, mas uma hora chegar; pelo mapa, seriam uns 12 quarteirões. Pelo caminho, passamos por um shops onde Thuin, que estava resfriado, comprou uma máscara pra fazer como os romanos, e compramos um carregador USB pra tomada japonesa, por uma grande galeria, rua coberta, cheeeeeia de tudo quanto é tipo de loja de tralha, inclusive tudo quanto é tipo de loja de comida, por um pequeno templo budista, com direito a santuário xintô no canto, onde jogamos nossa primeira moedinha aos kami e vimos de perto a primeira cerejeira realmente radiante, por um banheiro público que usamos (privacidade zero), e por um canal cheio de cerejeiras nas margens.

O museu de arte asiática fica nos últimos dois andares de um prédio comercial; o aluguel dos andares abaixo vai para a manutenção do museu. No elevador do museu, o seguinte diálogo:

-(Mari)Todo mundo aqui é baixinho.
-(Thuin) Nada a ver, esses japoneses que entraram agora são da minha altura.
-(Pessoas conosco no elevador): nín xiān qǐng” shì lǐ mào
-(Thuin) Deixa pra lá.

Dentro do museu, as obras - todas modernas e contemporâneas, todas da Índia pro leste - eram bastante variadas e bastante interessantes; o espaço, até bastante grande, parecido com o dum Masp ou Mam. Num momento, quando estávamos olhando um registro dum cara que acompanhou trabalhadores vietnamitas na colheita de bagas sueca e fez disso uma instalação, o curador do museu(!) foi falar conosco, perguntar de onde éramos. (Fukuoka tem bastante turista coreano e alguns chineses, mas quase ninguém de mais longe; no geral, povo assumia que éramos russos) e conversamos um pouco, bem pouco.

Na saída do museu, fomos até o outro museu, de artes tradicionais, que era perto, passando por uma praça simpática apesar de meio abandonada (aquelas em que o chão é mais terra batida do que grama), com uma canforeira grande cheia de papelotes. Este museu era bem menor que o primeiro, um sobrado, e era meio museu meio loja, com panos, marchetaria, cerâmica, tudo comprável; vimos o processo de fabrico dos panos num vídeo e compramos um moedeiro e uma carteira. Na rua do museu, que era uma rua secundária, outro templo e muitas camélias e rododendros, e umas wistérias.

Voltamos ao hotel para descansar, e à noite fomos conhecer as barraquinhas de comida que, pelo visto, são a principal atração turística da cidade. Há três áreas de barraquinhas; ao longo do velho porto, ao longo do rio que já tínhamos visto, e em volta do parque principal. Resolvemos ir na segunda, que era a mais próxima e não requeria usar o metrô (metrô no Japão custa pelo menos 7 pila a passagem). As barraquinhas não têm nada demais visualmente; são barraquinhas de comida, com bancos na frente pra se comer no balcão. Por conta do frio e da chuvinha fina, estavam todas escondidas atrás de cortinas plásticas semitransparentes; do outro lado do caminho de pedestres, cerejeiras e ameixeiras e, depois, o canal.  O Fantasma da Indecisão, herança de família nos assombrou e fez demorarmos literalmente uma hora pra decidir em que barraquinha ir; escolhemos uma de espetinho. Deu certo, porque os espetinhos eram realmente fenomenais, inclusive um de pele de galinha crocante, e mais um caldinho de legumes pra arredondar. Repetimos, lavamos com uma cerveja Asahi (depois descobriríamos que é a melhor das cervejas industriais japonesas; lembra a Antarctica pré-Ambev um pouco, bastante seca), e voltamos de metrô - parte porque joelho de Thuin estava ruim, parte por pressa de dormir depois de encher o bucho mesmo.

Tuesday, April 5, 2016

5.4.2015 Vladivostok. 0 a 8C Altitude 2m

Peixaria duty-free
Nosso último dia na Rússia, momento frio na barriga monstro,mas prestes a conquistar a Ásia (sério, acho que deu de territórios no War)! Acordamos cedo fomos para a estação de trem confirmar o horário do trem do aeroporto, confirmamos, entramos, percorremos boa parte do mesmo caminho que tínhamos percorrido na chegada antes do trilho se escapar por um terreno de hortas e dachas (ao contrário da chegada pela transsiberiana, em que as dachas faltam, provavelmente pela proximidade do mar), até que vimos o aeroporto surgir ao longe. E, de repente, o trem começou a desacelerar. Muito. Passou de 100 por hora pra 50, pra 20... juro que tinha uma galinha lá em baixo andando mais rápido. Não entendíamos nada, até que o trem chegou exatamente às 11:01 no aeroporto, como estava escrito na tabela de horários. Não é só se atrasar que leva pena de morte, se adiantar pelo visto também é proibido. O aeroporto tem um saguão grande, com uma generosidade de vidros e céus que, num clima tropical, significaria um forninho. Tem, também, uma peixaria no lugar de duty free.  Com hordas de japoneses, chineses, e coreanos comprando peixes, crustáceos, e ovas. Sério, as pessoas estavam socando peixe no isopor pra pegar o avião. Quando entramos neste (não tinha vodka de duty free, infelizmente), tinha uma confusão porque todo mundo tinha isopor do tamanho máximo para enfiar no bagageiro.
O ícone da religião deles

Decolando, podíamos ver os morros da península de Vlad lá embaixo, e depois de um tempo só mar oceano. Enfim, depois de mais tempo, surgem outros morros, bem maiores, cobertos de neve e pedra, e aterrissamos em Tóquio. Ou melhor, no aeroporto internacional de Narita, a alguma distância da cidade. Em volta da pista, muitas cerejeiras brancas.

Narita 10 a 14C Altitude 2m



O aeroporto de Narita é imenso e tão confuso que consegue ser labiríntico, mesmo com (aparentemente) um único. linear, e infinito terminal. Mas, enfim, conseguimos passar pela imigração e alfândega, todo mundo inacreditavelmente gentil, e chegamos no correio. Sim, correio, porque tínhamos a tralha de frio pra despachar de volta pro Brasil, já que no Japão já era primavera adiantada, mais as lembranças da Rússia, e tínhamos algumas horas até nossa conexão para Fukuoka. Passado o correio, fomos comer alguma coisa (o lanchinho da S7 não era lá digno duma viagem internacional), e achamos um restaurante de tempurá lindo, sem vista para o pátio mas com preços decentes. E sim, era delicioso. Dele, partimos para o salão de embarque doméstico, onde - ó glória - havia um par de cadeiras de massagem, onde Thuin prontamente começou a enfiar todas as moedas que tínhamos. Inda fomos chamados no alto-falante porque nossa bagagem tinha dentro um isqueiro zipo, e queriam ver se tinha fluido dentro (não tinha). Mézanfã... já dentro do avião, lembramos da diferença entre avião e trem. A cadeira era minúscula. Uma vozinha fina (quase todo anúncio de alto-falante no Japão é com voz aguda) avisava "vamos atrasar mais um pouco, senhoras e senhores. Aguente aí morrendo de dor nas costas que um dia sai, ok? Um dia. Talvez. Se você não morrer nem matar ninguém antes. Mais um atrasinho. Só mais um."

Segue assim até a terceira estrela depois do amanhã



Fukuoka 12 a 15C Altitude 12m


Enfim, sobrevivemos, e desembarcamos em Fukuoka. OK que também tem a diferença de escala, mas ao contrário de Narita tudo era simples de se achar, mais velhusco mas igualmente limpo, inclusive a estação de metrô; a ligação entre esta e o aeroporto propriamente dito tinha uma decoração renovada, remetendo aos tecidos locais e uma meia-barreira, até a altura da cintura. 


 A viagem foi curta até a estação central de trem, na frente da qual ficava nosso hotel; a vantagem duma cidade menor. (Em Tóquio ou Moscou, é coisa de hora e meia de trem expresso...) Os trens do metrô, não tão novos mas de novo limpos, fora as marcas de gasto nos estofados. (Pra que usar estofado em transporte público, meu buda.) E cheios de propagandas. De agora em diante não vai ter mais nenhuma menção a como o Japão é limpo ou cheio de propagandas, ok.


Finalmente chegamos na estação central, que se chama Hakata e não Fukuoka só pra confundir as ideias dos turistas (pra piorar as coisas, existe uma estação de trem chamada Fukuoka, no norte do país). Bem, eles dizem que porque nos tempos idos havia realmente duas cidades distintas; Fukuoka, o centro administrativo dos barões, e Hakata, a cidade portuária dos mercadores; quando as duas se fundiram, foi escolhido o nome da cidade baronial para a cidade, mas a estação de trem manteve o nome antigo. O hotel era quase na frente da estação; do outro lado duma praça não muito grande, com algumas árvores ainda mortas do inverno e outras jogando pro ar os primeiros brotos, além duma ameixeira já verde e um par de cerejeiras branquinhas. Numa das laterais da praça inteira, um bicicletário com umas 200 posições; na rua lateral que saía dela, uma fieira de máquinas de vendas; sobre a estação, duas (2) lojas de departamentos. O hotel era feiusco por fora e, por dentro, tinha uma cara enorme de anos 80. Não era sujo, nem particularmente limpo; o quarto era apertado, como esperávamos, mas a cama era do tamanho duma cama de casal normal. E o banheiro trancava hermeticamente, virando uma mini-sauna se quiséssemos...


Coca da máquina, chaleira instantânea, gelol, kinesiotape, e o catálogo de, ahem, acompanhantes escondido dentro do catálogo de filmes.

Pra jantar, atravessamos de volta a praça para procurar algum dos restaurantes da estação. Comemos num restaurante de ramen (miojo) em que não se fazia pedido ao garçom ou caixa, mas numa máquina automática; depois, era só aguardar seu número e entregar a comanda ao cozinheiro. E sim, era uma delícia.

Monday, April 4, 2016

4.4.2015 Vladivostok 2 a 8C. Altitude 2m

Com a maravilha descoberta no dia anterior, algo que nenhum guia dizia, de que Vladvostok tinha os melhores frutos do mar, decidimos que iamos almoçar em um bom restaurante, até para fechar a Rússia em grande estilo.
A pirâmide é um supermercado.

De manhã fomos andar pela cidade e procurar algum lugar para tomar café da manhã, paramos numa chocolatnitsa, uma rede de café que tem por toda a Rússia, mas que só entramos agora, e nossa, que delicia, se soubessemos antes teriamos comido bem melhor em Moscou (assumindo-se que a comida seria boa também em Moscou). Tanto os café e chá eram incríveis, quanto os prato, Mari comeu um salmão em camadas de blini com creme, que era divino. E a sobremesa de Thuin foi uma panqueca parecida, mas com frutinhas.
Gêngis Cã, reencarnado como gato. A tigela tem um bom palmo.

Com a barriga feliz fomos conhecer a cidade. Passamos pela rua central de compras, onde entramos numa papelaria fofohipster, pela Gum local ao lado da ponte sobre o Chifre de Ouro, por um mercado onde compramos umas poucas lembranças (inclusive chocolate), e pelo inevitável museu de estudos regionais. Neste, a bilheteira perguntou se Mari era russa, e um gato enorme nos rondava os passos. (Sério, literalmente. O museu, pequeno comparado com o de Khabarovsk, tinha um vira lata de persa enorme de gordo.) Além das inevitáveis exposições históricas e arqueológicas, inclusive um túmulo manchu, muita coisa sobre a construção da própria transsiberiana, e umas belas instalações de arte contemporânea envolvidas com as seções científicas; uma, que era uma parede apresentando distintos tijolos da construção da transsiberiana e da cidade, deixou Mari com amorveja forte; também tinha uma seção com uniformes de mulheres no exército curiosa.

No fim do dia fomos para nosso almoço tarde, jantar cedo no restaurante Palau, que segundo o que achamos no tripadvisor era conhecido por ter os melhores frutos do mar de Vladvostok. Pedimos de ameijôas a caranguejo rei, com direito a uma garrafa de vodka, fruto do mar cru, fruto do mar grelhado, fruto do mar assado... Saimos quase que rolando, e por sorte a volta era quase toda ladeira abaixo. No caminho de volta, ainda passamos pela feira livre na frente do porto, que também tinha uma variedade de peixes, outros frutos do mar, e frutinhas simplesmente inacreditável. De lamentar muito não ter ficado mais tempo e arrumado um lugar com cozinha, mesmo. Mézanfã, o dever de arrumar as malas para no dia seguinte seguir para o Japão nos chamava, e galgamos o morrinho do albergue de novo.


Pássaros sem ser corvos!

Sunday, April 3, 2016

3.4.2015 Khabarovsk -2 a 6C, Altitude 76m



Acordamos cedo e arrumamos as malas, prontos para o último trem (bem, penúltimo contando o do aeroporto) na Rússia. Moça do motel chamou o táxi pirata, com carro japonês adaptado para usar gás natural, nos ajeitamos, e colamos na estação com, sei lá, segundos para correr pro trem. Mas conseguimos, nos ajeitamos (era primeira classe de novo, dessa vez porque não tinha sobrado nenhum na segunda), e piuíii. Não, nenhuma locomotiva russa faz piuíi. Sim, elas são todas elétricas. Foi licença poética, ok.

A paisagem entre Khabarovsk e Vladivostok larga o Amur mas continua bastante mais dramática que os primeiros milhares de quilômetros. São montanhas altas na distância e uma infinidade de rios e lagos próximos da linha de trem, tudo coberto por uma vegetação bastante variada. Segundo tínhamos lido, no outono essa vegetação tem a maior variedade de cores outonais de qualquer lugar da Terra, mas como estávamos indo no degelo, a maioria era morta mesmo, com apenas um tipo de carvalho tendo umas folhas marrons. A comida, novamente (era o mesmo trem, pra nosso azar) estava horrorosa, por mais que se pretendesse chique (tinha até vinho). O peixe, por exemplo, eram duas variedades diferentes de peixe, à milanesa - as duas horrorosas, cozidas demais e pingando óleo. Anfã. Sobrevive-se. Depois de algumas horas, as estações rurais foram sendo trocadas por estações suburbanas e militares, e apareceu à nossa direita o Pacífico, ainda com gelo lhe grudando nas margens, e láaaa ao fundo as montanhas da Manchúria, na China.




Vladivostok. -4 a 0C, Altitude 2m

O sol tinha acabado de se por (sobre o Pacífico. É uma península.) quando, enfim, chegamos. Mari praticamente pulou pra fora do trem de emoção, procurando a plaquinha de quilômetro plataforma acima e abaixo. Enfim, descobrimos porque não a achávamos: ao invés de uma plaquinha, tem um monumento enorme. E são, desde Moscou, exatos 9288km. Somados aos 650km entre S. Petersburgo e Moscou e aos 381 entre Helsinki e Piter, dá 10.319km. Um tico de chão. Saindo da plataforma, não tinha rota direta pra rua, então lá fomos nós pro raio X. Um guarda, quando chegamos na câmara do raio X, perguntou de onde éramos, respondemos "do Brasil," e ele nos mandou aguardar. Já pensamos que "fudeu." Seríamos presos, sabe-se lá por quê. Afinal, não fazia tanto tempo que Vladivostok era proibida para estrangeiros. O ônibus. Tínhamos pego um ônibus em Píter e saído antes do cobrador aparecer. Socorrro!... o guarda chega, com um sorriso de orelha a orelha e um isqueiro comemorativo pra dar de presente, dizendo que adorava o Brasil.

Saindo da estação, toda neorussa quase neoromânica, podíamos olhar, do outro lado da rua, prédios e, abaixo de nós, a própria estação de trens e a de barcas; as estações estão ao pé de um penhasco, sobre o qual se ergue a cidade. E ainda teríamos mais um morrinho para andar...  E nos deparamos com uma rua onde não existia o número, mas havia um morro sem luz, de terra e com alguns entulhos nos cantos. Acho que foram uns cinco minutos para convencer a Mari a subir ai. No fim do morro tinha um prédio, que parecia abandonado e que mesmo assim entramos, a esquerda era uma mistura entre um cortiço e uma casa abandonada e a direita tinha uma porta. Esta com os dizeres do nosso albergue. Thuin demorou um bom tempo convencendo a Mari a pelo menos dar uma olhada; convencida, eis que a porta se abre e era limpo, com um tema náutico, levado a um exagero inacreditável no banheiro imitando banheiro de barco. Depois de descansar um pouco, fomos à cata de algo pra comer, e descobrimos que havia, sim, um motivo para conhecer direito Vladivostok, que merecia muito mais do que o único dia que tínhamos deixado. Sim, porque comemos numa stolovaya, uma cantina baratinha, e o salmão...

Senhoras e senhores, cavalheiros e damas distintos do júri, entitades variadas, o salmão. O salmão da saladinha de salmão com creme de leite e endro da cantina, que custou menos de 1,5R$. Era melhor do que quase qualquer comida que já tivéssemos comido na vida, certamente léguas melhor do que qualquer salmão. Os frutos do mar em Vladivostok não são outro nível, são outro universo.

Na saída da cantina, demos uma passeada rápida, mas Mari tinha ficado já assustada com o caminho para o hotel, e havia grupos de jovens (sem jovenas) passeando pela rua (era sexta), então resolvemos voltar logo de uma vez.

Saturday, April 2, 2016

2.4.2015 Khabarovsk -6 a 6C, Altitude 76m



Acordando em Khabarovsk, fomos passear - isso querendo dizer conhecer melhor o parque, ir ao inevitável museu de estudos regionais, e num museu de arte ao qual o guia tecia rios de loas.

O parque à beira-rio se espalha em patamares; entre a rua e a praia cascalhenta, segundo o guia lotada no verão, devem ser uns bons 50m de altura e incontáveis escadarias; algumas vão retas, outras ziguezagueiam, com plataformas e caminhos em tudo quanto é altura. Dá pra ver, em vários cantos, montes de agulhas de pinheiro; proteção para canteiros de flores não serem esmagados pelas neves do inverno. Chegamos no rio, pra molhar a mão pelo menos nas
águas do Dragão Negro (via-se gelo mais além, mas ao lado da cidade o rio já corria), e subimos de volta, por caminhos sinuosos; além da gente, só um ou outro casal, volta e meia alguém passeando o cachorro. Ainda no começo do parque, na altura da rua, está o museu de arte, num prédio eclético-art nouveau até interessante. A bilheteira nos explicou que pagava-se por piso, ou (e ainda bastante barato) para ver o museu inteiro, e resolvemos ver tudo... o que não era muita coisa. Tinha umas exposições de arte que pareciam, juro, aquelas coisas de antiquário estilo shopping Cassino Atlântico, uns salões oitocentistas reconstituídos, uma exposição de fotos de cerejeiras, e a melhor parte: uma pequena exposição de ilustrações de livros infantis.

No outro extremo do parque, o museu de estudos regionais também representava o outro extremo de museu. Num prédio de tijolo vermelho à inglesa, com expansão idem, bastante grande; uma vitrine na expansão deixava que o esqueleto de um cachalote olhasse para sempre para o rio Amur. Entrando, o troço era além de grande bem interessante, com exposições sobre "estudos regionais" que incluíam, num dos andares, uma "marcha através dos tempos" - no primeiro salão andava-se por objetos autóctones, no segundo por uma cabana russa ou cossaca primitiva, no terceiro por uma casa oitocentista (com pôsteres, brinquedos, etc), depois por uma na revolução, e assim por diante; também moderna era uma exposição sobre a variedade de povos da região; também não jogaram fora as exposições mais tradicionais (bicho empalhado e armas). Mandamos algumas fotos da exposição para um amigo, que perguntou "vocês estão no museu do metal?" Também havia exposições temporárias, inclusive uma sobre Harbin, na China, que já foi russa, com fotos de época e acetatos com fotos atuais que você punha em cima; uma de relógios de todo tipo; e uma sobre barcos, para crianças (proibida aos adultos, hmph). Comemos um sanduíche comprado numa máquina (acho que já se fazia notar a proximidade do Japão...) e saímos do museu para passear um pouco mais, inclusive dando uma bizoiada na biblioteca central da cidade.

À noite, fomos encontrar a Olga, que tinha nos contatado pelo Couchsurfing; ela (fofa e linda) nos levou para um pub onde tocava rock e, depois de saírmos, para dar uma olhada em outros cantos da cidade, inclusive a catedral nova (que parece ser mais objeto de orgulho cívico do que religioso pras pessoas); também contou, enquanto andávamos pela rua central, que no inverno duas doidas tinham ganho seus quinze minutos de fama correndo peladas pela rua...


Friday, April 1, 2016

1.4.2015 Khabarovsk Temperatura -6 a 4C, Altitude 76m





O nascer do sol nos brindou com uma visão estranhíssima: algumas árvores que não eram bétulas nem pinheiros. Umas macieiras-bravas e carvalhos, bem mirrados ambos; umas árvores que deviam ser faias, também mirradas e retorcidas. Mas meu deus do céu, não ser bétula ou pinheiro já era novidade, já estávamos saindo da taiga e chegando numa floresta fria normal.

Chegamos, enfim, depois de ler sabe-se-lá quantas enciclopédias e logo depois de cruzar uma ponte interminável sobre o Rio do Dragão Negro, em Khabarovsk. Com fome. (Thuin tinha se recusado a comer a última refeição do inominável vagão-restaurante e passado os últimos tempos à base de purê de batata com um último pedacinho do salame de alce.) Comemos na lanchonete da estação e (já que seriam uns 4km em linha reta por um bulevar até nosso mini-hotel) fomos atrás dum táxi. Que era oficial, pintado, mas oferecia cobrar, fora do taxímetro, mais ou menos o que os piratas haviam cobrado pelo percurso Irkutsk-Listvyanka. Então, né. Não. Pegamos o bonde mesmo; não era lá muito novo, pulava um tico, mas deu pra sobreviver (o sistema de pagamento era o mesmo dos ônibus; entra e espera o cobrador falar contigo; esse tinha até maquininha de bilhete único portátil). O bulevar pelo qual descia o bonde é lindo, se estende da praça da estação até o parque que margeia o Amur (aka Rio do Dragão Negro. Melhor nome), e chamar de "bulevar" é meio eufemismo; entre as pistas de carros (duas faixas em cada sentido) tem mais de 100m de parque, com árvores, fontes, estátuas, gramados, brinquedos, e flo-ok, talvez tenha flores, mas quando percorremos tinha um monte de neve e lama. Saltamos do bonde e fomos procurar a rua do hotel; descobrimos que era outro bulevar idêntico; o mini-hotel - é um motel mesmo, com janelão espelhado pra ninguém ver e decoração em vermelho- tinha, portanto, vista pro parque mesmo o quarto sendo no térreo. Não tamos reclamando!  Depois de descansar, usar tens, etc, fomos passear um pouco; a cidade toda aparentemente é cheia de árvores e parques, e muita, muita neve. E ladeiras, que brincamos que era pra começar a lembrar de São Paulo. E mesmo nas ladeiras, metros de neve, em primeiro de abril.

Além do bulevar em que estávamos, subimos uma ladeira curta para a rua principal da cidade, em que se alternavam prédios neorussos e construtivistas. Comemos uma pizza horrorosa (mas recomendada pelo guia), compramos uma calça jeans (Thuin tinha perdido a sua no trem), passamos numa livraria, tomamos um chá num café hipster fofinho, demos uma olhada no começo do parque que margeia o rio, Mari comprou um picolé com uma embalagem com cara de 1900 e vovó virgem, que era absurdamente delicioso, tomamos uma cerveja Oxota (momento Beavis e Butthead). Voltamos ao hotel, descansamos um pouco, e partimos para um supermercado para comprar a janta. No supermercado tinha uma bandejinha de caviar - de salmão e de um primo lá do esturjão - baratíssima; a gente deve ter feito muita cara de espanto, porque a gerente correu atrás da gente pra explicar que não era caviar de esturjão de verdade. Deu vontade de aprender o russo pra "dona, no meu país isso aqui já custa um carro."