Saturday, April 16, 2016

16.4.2015 Ise 13 a 19C, Altitude 56m



Acordamos cedo para pegar o trem, já que tínhamos descoberto que, se pegássemos o trem cedo, poderíamos pegar um lex, expresso interurbano confortável, no lugar do metrôzão de três horas e meia. Agradecemos o simpático povo do albergue e fomos lá correndo porque estávamos atrasados, olha essa ruazinha aqui que vira deve chegar mais rápido, pera ela continua virando, aimeucacete, tem uma passarela sobre os trilhos, PORRA estamos do outro lado, aimeudeus o trem foi embora. Ah well. Andamos um pouco mais e chegamos à estação da Outra, a ferrovia não-JR que faz a rota Ise-Quioto direta. Muito mais chique que a estação Ise da JR. E o trem direto de Quioto é um lex. Devíamos ter pago e usado ao invés de ir por Nagóia. A estação é ligada por outra passarela à da JR, e chegando nesta, fizemos um pow-wow com o mestre da estação, que resultou em pegarmos trem pra Taki para pegar o próximo lex, dali a quatro horas ao invés de naquela hora exata. Pensamos em passear um pouco por Ise, mas resolvemos que, se Taki era a junção ferroviária, devia ser maior, e ter algo de interessante, mesmo não sendo mencionada no guia. Pegamos uma cerveja "shinto beer" prum amigo que é xintoísta e tarado por cerveja, porque achamos que seria um presente ideal, e fomos lá.

Então. Sobre essa teoria... Taki pode ser uma junção ferroviária, mas tudo que conseguimos ver na cidade foi um mercadinho (com boa parte das prateleiras ocupadas por diferentes bebidas alcóolicas, o que nunca é bom sinal) e um bingo. A estação tem três plataformas abertas ligadas por uma passarela, e uma casinhola minúscula pro chefe de estação. Que mesmo assim, é a JR, está devidamente paramentado, de luvas brancas bem limpas, e faz sinal pros trens que chegam tão ereto e certinho quanto o mestre da estação Shinjuku. Enfim, depois de algum tempo de TÉDIO PROFUNDO (pelo menos serviu pra Thuin deitar no chão da plataforma) e um pouco de fome (nada no mercadinho era apetitoso), pegamos uma litorina, em que o próprio maquinista conferia seu ingresso, no nosso caso o JR Pass, pra Matsusaka, a próxima vila com algo mais do que um mercadinho e um bingo, e na qual poderíamos pegar o lex. (Com só duas plataformas de trem na estação, mas uma estrutura muito melhor.)

Matsusaka é, aparentemente, famosa pela carne e pelas facas, o que não deixa de ser uma combinação que faz sentido. Comemos um café da manhã numa padaria "francesa" na própria estação. A cidade não tem nada de notável que dê pra ver numa perambulação pela rua da estação; passamos por uma loja de facas realmente de dar água na boca, e por um vendedor de bentôs de carne porque, afinal, se é esse o negócio... passamos, também, pelo correio, de onde mandamos cartões postais pra sobrinhos e afilhado e pegamos dinheiro (em Ise, o banco do brasil tinha engasgado de novo).

O lex nos apanhou, enfim, e chegamos, com algumas horas de atraso, em Nagóia. Largamos as mochilas grandes no armário, transferindo roupa pra um par de dias pra pequena, e comemos um tonkatsu de lamber os beiços nas entranhas da estação (a estação, sede da JR-Central, pode ser enorme e luxuosa, mas as áreas de alimentação são corredores subterrâneos meio baixos e apertados), com uma cerveja hipster local igualmente de lamber os beiços. Pegamos o lex para Takayama, que é genial porque é um "wide-view" (assim, em inglês mesmo), um lex em que as janelas ocupam quase toda a lateral do trem, e com parede de vidro atrás do maquinista. Particularmente interessante quando você está subindo morro, como era o nosso caso. Já umas horas depois abrimos os bentôs, mas apesar de estarem gostosos (carne moída sequinha com legumes, e tirinhas de carne marinada com arroz), como tínhamos comido o tonkatsu não estávamos com fome, e guardamos um deles. Depois se provou uma má decisão...

Em Takayama, a estação era feita para parecer uma casa antiga; a cidade leva a sério seu título de "pequena Quioto," com muitos templos e árvores. Passeando um pouco enquanto esperávamos o horário do ônibus, entramos num templo com um gingko enorme. O ônibus era rodoviário, então a poltrona inclinava um pouco, mas em compensação as ruas de Takayama, não sei se pelo efeito do degelo, não eram lá muito lisas. Muitos gemidos de Thuin; foi quase um alívio chegar na estrada. Quase porque é no meio das montanhas, então não são poucas as curvas. Enfim, depois de um tanto de dor, chegamos. E valeu a pena: a 2500m de altura, a neve ainda não tinha derretido toda , e montanhas ainda mais altas se erguiam por todo lado, com a aldeia de casas de sapê lindas em volta do riacho que corria forte e brumoso com as águas do começo do degelo.

O cruzamento desse riacho, por uma ponte de concreto sem colunas que parece uma ponte pênsil dentro de si mesma e balança quando se anda, não foi lá a coisa mais fácil do mundo para Mari. (Thuin adorou) Chegando à pousada, que era numa das enormes casas de sapê, fomos recebidos pela dona, que nos explicou as regras e avisou que o jantar seria servido depois de tempo pra todo mundo tomar banho. Nos apressamos em ser os primeiros, porque todo mundo se revezaria na mesma banheira, e por mais que a regra seja se esfregar bastante antes de ir pra banheira... depois do banho, vestimos os quimonos de algodão e capa de seda pro frio que estavam providos, e fomos dar um passeio. Mari desistiu da idumentária e foi pra dentro pegar casaco e bota; Thuin disse que tinha direito a seu dia de princesa. A aldeia é bem pouco iluminada à noite, só o bastante para não ser medieval. Na frente da pousada havia um templo budista, com santuário xintô anexo; em volta, outras casas iguais a ela e umas menores, mais modernas, todas fechadas. A ponte estava praticamente imersa nas trevas, mas Thuin quis passar nela para ver e sentir o rio à noite; Mari só deixou se ele tirasse os tamancos de mandeira. A sensação era de pisar em musgo; no dia seguinte deu pra ver que era concreto nu, e a sensação, só do pé congelando. Chegamos a tempo da janta, que por mais que fosse deliciosa nos decepcionou um pouco: queríamos um ensopado das montanhas, e ao invés disso a impressão era de uma tentativa de fazer uma comida kaiseki, como a da estalagem de Miyajima. Mézanfá. Deliciosa, era. Depois da janta, a ordem é pular pros quartos, onde um aquecedorzinho elétrico e muitos cobertores nos aguardavam (e luz de teto desligada - tinha um abajurzinho pros insones).

Friday, April 15, 2016

15.4.2015 Ise, 12 a 17C, Altitude 56m



Acordamos, e fomos tomar banho - de chuveiro, só; a banheira anunciada não tinha cara de particularmente limpa. O banheiro do 4o andar tinha vista para quase toda a cidade, se algum zé-mané abrisse a janela para deixar entrar o vento frio cortante enquanto tomava banho quentinho. Hipoteticamente. Do albergue para o santuário exterior, o Geku, dedicado a Toyouke Omikami divindade das colheitas e provedora do palácio celestial de Amaterasu Omikami deusa do sol e rainha do céu, fomos a pé, beem lentamente porque a rua principal era mais atraente de dia que de noite.  Mari tomou um excelente sorvete numa leiteria, e olhávamos as lojas dedicadas aos romeiros e turistas. Chegando no Geku, reparamos que a faixa etária dos turistas ali era um tico mais velha que em outros pontos turísticos. Digamos, de 50 pra cima, pelo menos, e a maioria em excursão. Tinha um outro casal de seus 30 solitário, só. Na entrada, também, o museu dos santuários, erguido em 2013.

Fomos primeiro ao próprio santuário, e realmente é uma experiência incrível. Os santuários de Ise são ao mesmo tempo novinhos em folha e velhos como a noite dos tempos porque, como santuários "vivos," são derrubados e reconstruídos, com o mínimo de alteração possível, de vinte em vinte anos. Assim, as edificações principais (algumas edificações acessórias são mais antigas) tinham ao mesmo tempo cheiro de madeira nova e as brumas da pré-história em volta. E brumas literais já que, como bom santuário xintô, uma floresta sagrada faz parte do próprio templo. Para aumentar ainda mais o estranhamento "pré-histórico" do local, no xintô o templo é casa do deus, e não local de oração: os santuários interiores de Ise são vedados aos mortais.

A floresta é de criptomérias, enormes, primas das sequóias californianas, da altura de prédios de 20 andares, com aqui e ali outras árvores, de todos os tamanhos, e pequenos subtemplos, dedicados a outros deuses. São os palácios de Amaterasu e sua majordoma, e contèm a versão divina de todos os cortesãos e funcionários de um palácio. Outra diferença desse xintô "primitivo" pra forma mais urbana, mais budistizada, que tínhamos encontrado em Quioto e Miyajima: aqui, o cavalo sagrado não é uma estátua decorada, é um cavalo mesmo, vivo e resfolegante, um árabe ou andaluz de pêlo branco de doer os olhos. Uma plaquinha do lado do estábulo avisa que o bicho só passa ali, em seus deveres divinos, umas três horas de dia e outras três à noite, sendo exercitado regularmente por um sacerdote-cavalariço e dormindo o resto da noite num estábulo um pouco mais moderno do que o século VII.

Saindo do Geku, passamos pelo museu da reconstrução, que em gravuras e objetos mostra como ela é feita, incluindo todos os passos do processo de criação dos acessórios (até os sapatos dos sacerdotes e enxadas de quem cava os alicerces), que Mari em particular achou fascinante, com uma laca de 38 camadas "dissecada" em cada camada, ou estátuas em degradé do bloco bruto à escultura polida. Também há no museu uma réplica em tamanho real do palácio divino de Amaterasu, que na verdade é o que poderíamos ver dele, já que ali perto, na realidade, só se vê é um muro.

Pegamos o ônibus para o Naiku, o palácio da própria Amaterasu; o ônibus, além de ser curto, era mais ou menos equivalente ao de Quioto, mesmo andando num tecido urbano muito menos denso. Tinha uma máquina de troco, também, ao invés do motorista dar troco: tudo que ele tinha que fazer era ver se você colocou todo o dinheiro, trocado, antes de sair. Saltamos, ao lado de um templo budista, e andamos pela rua de compras - mais ou menos do mesmo tamanho da de Fuximi, mas muito mais calma, sem gritaria, sem sushi de bacon. A realeza não curte os excessos de mercadores... compramos um saquê e uma cerveja locais, e seguimos para o santuário, separado do espaço profano por um enorme torii (tinindo de novo) e uma ponte (idem, acho que já deu pra entender: tudo reconstruído em 2013). A experiência era parecida com a do santuário exterior, mas ainda mais intensa, ainda mais "caímos no Princesa Mononoke." As criptomérias, ainda maiores, com uma ou outra canforeira quase tão enorme quanto pra dar variedade.

O palácio interior de Amaterasu fica no alto de uma escadaria. Só se pode ver a cerca e uma capelinha de oferendas, normalmente, mas na ocasião um sujeito estava lá fazendo a sua oferenda, algum figurão a quem foi permitido atravessar a primeira cerquinha para fazer isso (a segunda cerquinha só sacerdote; a terceira, nem sacerdote atravessa, antes de escoados os vinte anos).  Fizemos nós mesmos a nossa oferenda - não se pode, ali, avisam as placas, rezar por si ou pela família, só pela  comunidade maior, por cidades e países. Não se deve importunar a rainha do céu com assuntos comezinhos.

Na saída, de volta ao mundo terrestre, fomos direto (o caminho do ônibus foi bem mais curto, devíamos ter pego esse antes) para a estação de trem, para pegar uns bentô e o trem rumo às Meoto Iwa, as pedras casadas representando os deuses que teriam criado o Japão (não o mundo), Izanagi e Izanami. A estação Futaminoura, onde ficam as pedras, é mínima, sem funcionários e na forma um TIQUINHO brega das próprias pedras, se tivessem sido desenhadas pelo Hans Donner, e coberta de vidro fumê. No banheiro, ao lado do mictório, cinzeiros.

Se Ise é pequena, Futaminoura é mínima. O espaço que andamos, da estação à praia e de uma ponta da praia à outra, basicamente compreende a vila inteira, e foi uma caminhada de pouco mais de um quilômetro. Há um pequeno parque-calçadão na parte da orla que não tem praia na frente, que se estreita quando aparece a praia, de areia vulcânica cinza e cascalho misturados. A cada 200m, um quebramar, indicando que apesar daquilo ali ser teoricamente baía de Ise, não era um pedaço muito tranquilo de mar, mas essas ondas não estavam visíveis quando fomos. Só marulhos e murmúrios. Antes de ir às Meoto Iwa (que são, também, um santuário xintô, onde se deve purificar mãos e boca antes de entrar), Thuin resolveu fazer a purificação no próprio mar ao invés de na fontezinha. Afinal, do reino de Amaterasu ao de Iemanjá. Antes das pedras, um monte de esculturas de sapos e rãs. As próprias pedras são bem menores do que esperávamos; a corda de palha entre elas deve ser grossa, mas se perde na distância. Mas o sol se pondo contribuía para o efeito, mesmo se ele se recusava a se pôr entre as pedras como nos cartões postais.

Enquanto o sol demorava a se por (um longo beijo entre Amaterasu e Iemanjá?), fizemos piquenique sobre o quebra-mar, de sushi e inarizushi (tofu recheado de arroz de sushi e frito) com o saquê da rua do templo, absolutamente delicioso. Na volta fomos por dentro, pra escapar do vento do mar que cortava. Na chegada ao albergue, Mari deitou dois segundos e dormiu; Thuin lavou a roupa na máquina de lavar do quarto andar, fez um jantar rápido pra si mesmo conversando com outra hóspede, e desistiu (pra se arrepender depois) de sair pra tomar banho no banho público anunciado na porta do quarto.



Thursday, April 14, 2016

14.4.2015 Osaca 14 a 17C, Altitude 24m



Em nosso último dia em Osaca, fomos ver o que não deu pra ver em Moscou nem em Irkutsk: um parque no subúrbio com construções rurais em madeira. Acordamos bem cedo, porque afinal de contas tínhamos trem pra Nagóia depois Ise mais tarde, fizemos check-in e largamos as mochilas num armário na estação shin-, e pegamos o trem. O subúrbio em questão, Ryokuchi, é razoavelmente longe - uns bons 12km e meia hora de trem, que não era da JR então tivemos que pagar, da estação Central. Conforme o trem ia avançando, a altura dos prédios não diminuia linearmente, ao invés disso a quantidade deles ia diminuindo e se entremeando cada vez mais com prédios baixos e casas. Nesse sentido, o Japão inteiro - ou pelo menos o que visitamos - se parece com uma grande São Paulo, não fosse o trem ter um ziguilhão de anúncios a mais, assentos estofados com molas e, no caso, fórmica imitando madeira nas paredes. Quando chegamos na estação, Thuin tinha perdido o bilhete de saída - particularmente problemático porque já não estávamos na zona 1, em que se você entrou você pagou o certo. Mas quando chamamos o guarda para explicar ele, apesar de não falar inglês, concluiu pela nossa cara de aflito que a categoria era "gringo perdido" e não "gringo querendo ser malandro," e liberou a saída pra gente.

Da saída da estação, que é subterrânea apesar da própria estação ser em superfície, sai algo que é entre um tentáculo do parque e uma rua de pedestres até o parque propriamente dito. Este, bordejado por um canal, é razoavelmente grande, todo em aclives suaves com muitos patamares. Na entrada uma cerca para impedir motoqueiros de entrar, com uma "porta" circular pra permitir o acesso de cadeirantes. Chovia a cântaros enquanto andávamos procurando o museu de casas rurais, e a maioria das muitas cerejeiras estava já completamente depenada de flores; algumas até já tinham folhas, assim como todas as castanheiras, que além disso já estavam dando castanhas, em alguns lugares o chão estava coalhado de castanhas portuguesas, lembrando a época (mais ou menos abril, também, aliás) em que as palmeiras dão coquinhos nos parques do sudeste do Brasil. No meio dum lago, um velho vestido de túnica chinesa praticava tai-chi numa ilhota que era inundada por uma fonte de vapor de três em três minutos. Achamos hardcore. A ilhota deve ser mais crowdeada no verão... além do velho, a única outra viv'alma que vimos no meio dum toró no parque numa manhã de dia útil foram uma mãe com a filha vestida de arco-íris, que animadamente pulava na poça em volta dum grande canteiro de tulipas.

O "museu" na verdade consiste de uma área do parque em que se remonta casas e outras propriedades rurais tradicionais que estão prestes a serem demolidos pela marcha inexorável da especulação imob- digo, do progresso. Como a casa tradicional japonesa é feita de madeira, não chega a ser um trabalho muito complicado. Há casas de todo tipo, a mais antiga do finzinho do século XVIII e as mais novas já dos anos 60. Quase todas muito simples, fogão-de-barro e pessoas-dormem-com-cavalo simples, mas todas desbundantes; deu ainda mais peninha de não ter ido no equivalente russo. Enquanto visitávamos arregalando os olhos, a administradora do museu achou fascinante aquele par de gringos sabe-se-lá vindos de onde, e nos perguntou se éramos pesquisadores de arquitetura, que aparentemente é o único grupo grande de turistas de fora de Osaca que aparece por lá. Depois de explicarmos que não, só curiosos mesmo, ela nos convidou pra ver o processo de cura de uma das casas.

Como as casas são de madeira sem verniz, e por mais que se use madeira dura, bem, chove pra caramba no Japão. Mais ou menos a mesma coisa em Osaca que em São Paulo, mas mais distribuído ao longo do ano, e com bem menos sol pra secar. Então os tetos de palha têm que ser curados, cheios de fumaça para espantar os insetos e mofo, e o povo fazia disso quase um ritual, que inclui fazer chá no fogo da fumaça. O velhinho que conduzia o ritual, que morava nos arredores (parece que toda a área é uma área cheia de migrantes do êxodo rural dos anos 60), nos explicou bastante sobre os detalhes da construção da casa, limitado principalmente porque nem a administradora nem nós entendíamos tanto quanto ele de madeiras e seus usos, então a tradução às vezes emperrava bonito.

Depois de concluida a cura, andamos mais, só não vendo direito justamente a mais impressionante de todas, que era uma casa de Shirakawa-Go, já que iríamos depois na própria. Havia também uma casa-celeiro do extremo sul de Kyushu feita de pau-ferro, com cara de coisa polinésia, havia casas mais elaboradas e recentes, ou mais primitivas (com paredes de palha ao invés de madeira ou taipa), uma casa grande e meio europeizada em que um grupo jogava RPG live action, e muitos rododendros na chuva. Havia instrumentos tradicionais de tudo que é ofício espalhados pelas casas, da cozinha à carpintaria, também, e em algumas explicações de tradições e superstições do local de onde vinha a casa.

Na volta do parque, vimos uma sobaria que parecia bem gostosa na entrada da estação, mas deixamos pra lá porque tínhamos decidido ir, em homenagem ao cumpadre Rafael, na Dotombori pra comer miojo. Chegando em Namba, já ficamos na dúvida se tinha sido boa ideia porque o tempo já era meio apertado. A estação Namba do metrô está sendo reformada pra ficar chique e virar uma loja de departamentos subterrânea, então alterna áreas com um alucobond branco imaculado e áreas de pastilhas encardidas de cor indeterminada. Fora dela, o caos organizado daquelas imagens de estereótipo do Japão, com um minhocão passando sobre a avenida, fios de luz pra tudo que é canto, lojas, lojas, lojas, lojas, compre compre compre, passagens cobertas, galerias, um caranguejo gigante semovente, um canal (como coube um canal aqui), ainda, mais lojas, restaurantes... impacto visual nível um milhão, lei cidade limpa se alguém sugerir recebe visita da Yakuza na mesma noite. Curtimos. Quase o oposto do parque tranquilo com o velhinho curando o teto de sapê.

Comemos numa ramenria que se proclamava bicampeã do concurso de melhor ramen do Kinki. (Kinki é outro nome pra Kansai, em termos de hoje a RM de Osaca, que inclui Nara, Quioto, Kobe, e Himeji). Apesar do troféu era um lugar simples, com cozinheiro e balconista com cara de serem irmãos e no qual se fazia o pedido numa máquina de tíquetes do lado de fora e pegava os hashi num paliteiro no balcão. O próprio miojo, artesanal, com ovo cozido no ponto certo, com a gema molinha, e coisas diversas dentro, num molho de missô negro ou de cogumelo, não sei se era o melhor do Kansai mas bom pra caramba era.

Voltamos apressados para a estação shin-Osaka, mas perdemos o trem. O que não tinha problema nenhum, porque o shinkansen entre Osaca e Tóquio é basicamente o metrô mais rápido do mundo, e passa literalmente de cinco em cinco minutos ou menos. Pegamos o próximo, então, e lá fomos nós. A viagem não era tão cênica assim, parte porque as cidades se aglomeram em volta do caminho do trem, parte porque estava um bruta nevoeiro. Mari dormiu. Chegamos em Nagóia já ao anoitecer, mas ainda a tempo de sair pra olhar o lado de fora da estação, descobrir que o nevoeiro não deixaria olhar nada, fora que as placas de sinalização adicionavam ao chinês, inglês, e coreano o português, e pegar o trem (que NÃO partia de cinco em cinco minutos) rumo a Ise. Quando entramos nele, a ingrata surpresa: era um rápido "estilo metrô." Mari, mesmo assim, dormiu de novo. Thuin, com a dorzinha nas costas de passar três horas num metrô, ficou olhando a paisagem noturna passar.

Em Ise, a estação era, também, mais simples do que imaginávamos para o principal centro de romaria do Japão; em compensação, o albergue era praticamente na porta. Aliás, mais perto, apesar de ser no quarteirão seguinte, que o hotel de Kazan; a falta de uma praça monumental fazia a diferença. O albergue, uma casa meio com cara de dilapidada e cheio de belos grafites dentro, tinha uma equipe simpaticíssima, que nos apresentou aos adolescentes que bebiam na sala comum. Um deles cumprimentou Thuin "Mariria! Bem vindo!" Então... subimos para nosso quarto, que era de tatame, não muito limpo mas ok, descansamos um tento muito, e fomos dar uma olhada na cidade, que era tão vazia quanto se esperaria duma cidadezinha a altas horas da noite. Não quisemos comer num sukiyaki com cara de fast food, nem num restaurante italiano com cara de caro, então compramos uns ingredientes (cogumelos, nirá, alho poró, ovos, tudo fresquinho) numa loja de conveniência pra fazer espaguete na cozinha do albergue. Também fomos até o começo do terreno do santuário de Ise, na outra ponta da rua da estação, e passeamos um pouco mais pela cidade, por mais que tivesse tudo fechado. Uma curiosidade que reparamos foi que, ao contrário do normal do Japão, havia latas de lixo nas ruas, e não só as latas ao lado das onipresentes máquinas de bebidas.

Wednesday, April 13, 2016

13.4.2015 Osaca, 14 a 18C Altitude 24m


A estação Quioto, de fora
Neste dia fomos novamente a Quioto, dessa vez já sabendo que era mais jogo pegar o Lex direto. E ainda descíamos numa plataforma mais perto do metrô, o que não é pouca coisa numa estação de 33 plataformas. Chovia copiosamente em Quioto, portanto compramos um guarda-chuva na loja de conveniência da estação; como ele era caro e simples, inda tentamos dar uma banda pela loja de departamentos anexa pra ver se achávamos um melhor ou mais barato, mas rapidamente chegamos à conclusão de que nos perderíamos e passaríamos o dia inteiro ali. Pegamos o metrô rumo ao palácio imperial, para reservar a ida a Katsuura. E, na saída do metrô... um camelõ vendia os mesmos guarda-chuvas, exatamente idênticos, mesma marca, tudo, pela metade do preço da loja de conveniência da estação. Ah well. Nunca compre nada em aeroporto se puder evitar, etc etc.
O portão principal do castelo de Nijô, com tapumes

Pegamos um ônibus para percorrer os três quarteirões compridíssimos entre o palácio imperial e o castelo de Nijo; daria pra ir a pé, mas já tínhamos comprado tíquete diário pra todos os transportes mesmo. Para um brasileiro, o ônibus era A) ridiculamente limpo e com a suspensão muito macia (mal sentíamos até rachadura feia na rua), e B) excruciantemente lento, comparado com ônibus paulistanos. Comparado com ônibus cariocas, ele não se deslocava. Até porque não tem essa de motorista contar dinheiro andando; se precisava contar dinheiro, ficava parado pelo tempo necessário.
Parte da talha do portão interior

O castelo estava recém-reformado; na verdade, o portão principal, atrás de um fosso largo e sobre uma muralha de pedra seca como os de Himeji e Osaca, estava sendo reformado ainda, com andaimes e tapumes brancos escondendo todo ele. Parecia que estávamos entrando num portão modernista, não medieval. Atrás do portão, os espaços eram menores do que no primeiro pátio de Himeji, mas bem maiores que nos subsequentes, e os muros mais baixos. Não há torreão no castelo de Nijo mais; aparentemente, ele queimou em 1700 e, como o castelo já não tinha mais importância militar há muito tempo, ninguém se deu ao trabalho de reconstruir, e nem ousaram fazer isso (e arriscar mexer no palácio) na onda de reconstrução de castelos dos anos 60-80.
Pinturas da escola de Kamo. (Tioricamente era ilegal tirar foto, mesmo sem flash, mas tinha uma pá de gente tirando, grazadeus sem flash.)

Sim, palácio. Passando os primeiros portões e as edificações que antes eram cavalariças, armazéns, casas de sicofantas e cortesãs, etc etc etc, você entra no palácio mais fueda sobrevivente no Japão. A talha de madeira sobre os portões de entrada, recém restaurada, é comparável a qualquer Aleijadinho ou Gunther, mas mais delicada que os primos europeus, quase uma aquarela 3d. Ao lado da entrada do palácio, um estande com dezenas de travas de guarda-chuva, e uma calha feita por uma corrente de baldes, fazendo com que a água não respingasse sobre as paredes de taipa de pilão e madeira.
O jardim de Nijõ

Dentro do palácio, a opulência continuava. Muitas pinturas da escola Kamo, com fundo de ouro. E uma formalidade absurda, segundo o audioguia: salas para cada estágio da hierarquia, e divididas por sexo em cada caso. O mais curioso é que todas essas salas formais de audiência, erguidas sem pensar no custo, para humilhar mesmo o imperador ali do lado, quase não foram usadas. Além de não ser fortaleza, Nijo também não foi palácio; o Xógum morava em Edo, hoje Tòquio, e de lá não saía. Um senescal cuidava de toda a talha, e pinturas, e biblioteca, e jardins inestimáveis, andava pelos pisos rouxinol... não contamos sobre essa: os pisos do palácio são "pisos rouxinol," com pregos ajustados pra ranger lembrando um chilro mesmo, teoricamente tanto como brinquedo quanto como sistema de alarme. No auge da temporada turística, isso significava que andávamos no meio de uma barulheira digna dum bando de maritacas. Mas melodiosa.
Isso é uma rua, uma ciclovia, e uma calçada. Juro.

Saindo de Nijo, já não era muito cedo. Resolvemos comer num restaurante que o guia elogiava que era nepalês, e ficava no mercado municipal. Que é, na verdade, um monte de ruas de pedestres cobertas com lojinhas, não uma única estrutura. Pegamos outro buso, e chegamos na ponta da área. Que, bem, era um tico maior do que imaginávamos. E bem interessante, com lojas de tudo que é coisa, mas incluindo muitas de materiais tradicionais, como tecidos ou papel (lindos), e até um par de sebos de gravuras. O restaurante nepalês, quando enfim achamos (numa rua secundária não-coberta e aberta a carros e bicicletas. Bem, um carro OU uma bicicleta de cada vez, e um pedestre magro), estava fechado para o almoço (já eram umas três da tarde), e só reabriria à noite, então voltamos lá para a rua principal da área de compras. Eventualmente, e nos recusando a comer Sukiya, hambúrguer, ou pizza, ficamos com um lugar de Okonomiyaki, bem com cara de boteco, com pratos 3d na vitrine. Pedimos o okonomiyaki x-tudo de interior, que tinha camarão, boi, porco, galinha, bacon, lula, e provavelmente algum incauto que passou perto da cozinha. Servido pelando numa chapa pelando no meio da mesa. Não levada à mesa; a mesa tem a chapa integrada. Come-se, todo mundo, direto da mesa. Era gostoso, mas nada que se comparasse ao que comemos em Osaca. Como ainda estávamos com um tico de fome, pedimos um de carne com bacon. Como nosso japonẽs era parco, a dona nos levou um de carne E um de bacon. Enfim. Com a pança cheia de okonomiyaki, cerveja, e um copo de licor de ameixa, lá fomos embora de volta pra Osaca, já que a ideia original de visitar um templo perto de Fuximi esbarrava nas costas de Thuin, que já estavam no estágio de mancar, e na razoabilidade em geral. Na volta, pegamos o trem numa das plataformas antigas, de ferro rebitado e teto de zinco, que achamos de uma frugalidade admirável: pra quê tirar o que tá funcionando só porque você tá transformando outro pedaço da estação em luxe, glamour, pouvoir, et séduction?
X-tudo. O preço dá uns 45R$.

Em Osaca, resolvemos, já que tínhamos um pouco mais de tempo, procurar uma loja de conveniência Lawson (pronuncia-se "rausson" ou "rousson") para comprar os ingressos pro Estúdio Ghibli, que os mãos de vaca tínhamos nos recusado a pagar a sobretaxa de internet. A que havia perto da estação Osaca Central era no subsolo dum prédio comercial, numa galeria de compras. Quase tudo na galeria fechado, mas as portas da própria aberta. Fomos na Lawson, e a maquininha só falava japonês, então cometemos a imprudência de pedir ao caixa para confirmar. O moço entendia menos que a gente como a máquina funcionava, e ficou horas fuçando, atenciosíssimo e perdidíssimo. Enfim, desistiu e chamou o colega que devia estar cochilando nos fundos, e confirmou na mesma hora que era o que pensávamos. Compramos os ingressos e uns pacotes de petisco, meio culpados de ter feito o moço demorar tanto.

wasabi, o de verdade, não essa raiz forte com alface que nóis come
As outras lojas abertas na galeria eram um "Ladies' Bar," que não conferimos o que era, e um boteco de comida tailandesa, que aparentemente tinha um dono-barman-cozinheiro-caixa. O amigo dele achou fascinante aparecerem dois brasileiros ali, e tentava se comunicar conosco via google translate. A comida do bar era absurdamente deliciosa, e tinha uma carta de cervejas de tudo quanto é país da Ásia; a melhor era vietnamita e se chamava Saigon.

Mais do jardim de Nijõ
Chegando no hotel, Mari se deu conta de que a roda gigante em que tínhamos andado, à distância, fazia a previsão do tempo. Comprou uma cerveja na máquina, e se postou a filmar a dita-cuja... 
O xis-tudo, na mesa, e a espátula de removê-lo. Ao lado, o balde de molho.

Tuesday, April 12, 2016

12.4.2015 Osaca, 11 a 16C, Altitude 3m

A estação Himeji. Ao lado, a loja de departamentos Festa


Terceiro dia no Kansai, terceira "cidade" a se visitar. (Na verdade todas fazem parte da mesma metrópole, com Osaca de centro.) Para ir a Himeji, pegamos o trem-bala; na maior parte do ano, só param uns poucos expressos em Himeji e o parador, mas nesta época só o direto não está parando, porque todo mundo quer ver o castelo de Himeji com as cerejeiras em flor.

Todo mundo.

Todo mundo MESMO.

Na saída do trem, que parecia saída de metrô no rush, já devíamos ter nos dado conta disso, e deixado pra voltar durante a semana (ainda por cima era domingo, ou seja, a galera toda da região, que dá pra fazer day trip, estava lá também). Mas não pensamos.
O calçadão de Himeji

A estação Himeji em si é uma pérola da Bauhaus, incluída a obrigatória loja de departamentos. Ela dá para uma avenida com calçadões, ainda mais limpa do que a média das ruas japonesas, plantada com bordos em ambos os lados; já da saída da estação dá pra ver o castelo na distância. (A "distância" é de um quilômetro, mais ou menos.) Lojas chiques disputam espaço com lojas de tralha pra turista ao longo da avenida. Já no fim dela, uma praça se abre, separada do castelo por uma rua, com poucas árvores e muitas barraquinhas de comida.
O torreão, visto do primeiro pátio

A ponte e portão principal do castelo estavam coalhados de gente, mais um engolidor de fogo e um par de sujeitos vestidos de soldados do período sengoku pra se tirar foto junto por módicos sei lá quantos ienes. (Com fila.) dentro, o enorme primeiro pátio, que antigamente tinha uma verdadeira sub-cidade, tem ao invés disso um gramado polvilhado de cerejeiras, nos quais uma verdadeira horda mongol fazia piqueniques. Se permitissem churrasqueiras portáteis dentro do castelo, acho que a visão de longe seria a de um castelo ardendo em chamas, tomado pelo inimigo.
Um dos muitos portões. Tem alçapões pra jogar pedras e calhas de óleo fervendo.

A parte paga da visita começa no segundo pátio, depois de uma bilheteria que já foi uma guarita. A passagem pelo portão também foi, naquele dia, o último lugar pelo qual andamos propriamente dito, ao invés de deambularmos em fila indiana. Dali, o sinuoso percurso de um invasor levava a uma sucessão de pátios e, no final, ao torreão, subido também em fila indiana, e em lotes por andar - sai um lote de gente, entra outro. Quase todo mundo olhando só pelas janelas gradeadas, como se fosse um mirante, e muito pouca gente olhando pro interior do castelo - que, a bem dizer, difere bastante do exterior austero mas suntuoso, é basicamente madeira escura sem talha, nem os espaços são muito grandes, o que é até razoável para algo que era uma fortaleza, não apenas um palácio. Thuin se encantou, mas a maioria das pessoas parecia não achar muita graça.  As decorações eram temporárias e colocadas em cima disso.

A sala do harém do torreão de Himeji e um mané fazendo pose.
O castelo havia recém sido reformado, com as técnicas antigas, e havia diagramas de como isso foi feito (a viga-mestra antiga era feita de duas peças de pinheiro; pra nova, arrumaram um único pinheiro enorme). Deu tempo pruma breve pausa, saindo da fila dos outros, para posar de daimiyoo e, do último andar, pra ver a cidade inteira, com encostados no castelo um par de escolas, um zôozinho, um parque de diversões pequeno.
Os muros de pedra seca.

Na saída do torreão, ainda passeamos um pouco pela barbacã, toda ocupada por um jardim. Não deu pra passar no jardim que queríamos conhecer porque já estava na hora do fechamento, então voltamos à estação e tomamos um chope enquanto esperávamos o trem parador para Kobe. As áreas gerais da estação são sob os trilhos, então cada vez que passava um direto por cima tremia tudo.
Vista de um ponto da fila para outro.

Em Kobe, nos deparamos com o pequeno problema de não termos pesquisado antes aonde comer o boi, então recorremos ao tripadvisor, que nos recomendou o corredor de comida da própria estação Kobe; não a shin-Kobe, mas a do meio da cidade. Então pegamos o metrô pra lá e comemos, depois de só sair da shin-Kobe o bastante para ver os arredores, com um rio canalizado transversal à estação (que é alojada entre dois morros). Comemos um pouco preocupados com a hora, com perder o último trem, mas inda deu pra aproveitar; não que o tal boi seja tão interessante assim. É mais macio do que gostoso. Mas o resto do prato de sashimi estava uma delícia, e o tonkatsu idem, então a decepção com o bife de kobe não foi tão grande. Ok que talvez tivéssemos comido melhor e mais barato em Osaca, e sem o atropelo. Ao invés de voltar para shin-Kobe, pegamos um trem direto para Osaca dali mesmo; como para Quioto, o tempo não seria muito diferente. Este, ao contrário do para Quioto, não era um lex, um trem caro (para quem não tem JR pass) e com conforto igual ou melhor que o do shinkansen. Era um "special rapid," mais confortável que metrô mas ainda com putaqueparius pelo meio do corredor e cadeiras não-reclináveis (mas acolchoadas), que demoraria meia hora até Osaca-Central. Melhor meia hora na cadeira normal que arriscar dormir na estação, ou pagar táxi interurbano no país com os táxis mais caros do mundo...

Na barbacã

Monday, April 11, 2016

11.4.2015 Osaca 12 a 16C Altitude 24m


O saguão da estação Quioto

Ou melhor, altitude "24m e subindo," já que foi nosso primeiro dia subindo para Quioto. "Subindo" no caso não é que nem subir do Rio para Petrópolis, já que o Japão, apesar da quantidade de montanhas no mapa, é uma civilização da planície, que via a montanha como território exótico e bárbaro até recentemente. Quioto fica a meros 140m de altura, e sinceramente nem se percebe que o trem está subindo. (Em comparação, o trem de Santos para São Paulo tem que usar uma roda dentada para subir.) Pegamos o trem para Nova Osaca, de lá o trem-bala para Quioto, e descobrimos que o tempo foi mais ou menos o mesmo que se tivéssemos pego um trem normal (expresso interurbano, lex) em Osaca Central, só que com mais baldeação. Anfã. Acontece. Ao contrário da maioria das estações do Japão (que são subsolos de lojas de departamento, basicamente, eou acumulações de puxadinhos) ou de Osaca Central (que é enorme, mas não particularmente impactante), a estação de Quioto é lindíssima, catedral dos transportes da mais pura cepa, toda em aço e vidro. Como Quioto é centro de várias rotas, motivo até pra ter sido capital, a estação é maior do que qualquer das duas de Osaca (bem, ok, também porque as duas dividem as plataformas), com mais de 30 plataformas. O saguão e todo de vidro e aço escovado, enorme e com curvas e ângulos que lembram um origami em escala monumental.
Cerejeira no palácio imperial

Na saída do metrô (menos rápido que os trens urbanos da JR, com estações mais feiúscas e uma programação visual que, se não era exatamente clean, não era o excesso de informação da JR) Fomos ao palácio imperial, para admirar os jardins e porque eles eram parte do nosso caminho para o Pavilhão de Prata e o Caminho dos Filósofos. Os jardins do palácio realmente são bastante impressionantes, uma versão em grande escala de jardins japoneses clássicos; o próprio palácio, uma recriação livre novecentista dos palácios antigos, é bem menos. É basicamente um muro baixo com telhado preto, com uma larga faixa de brita em volta o isolando dos jardins.
O Kamõ

Antes de chegar na loja de bicicletas para alugar as magrelas que nos levariam ao pavilhão e à promenade, atravessamos o rio Kamô, não pelo caminho mais óbvio (pela ponte) mas por um caminho de pedras que pareciam tartarugas. Nas duas margens do rio se estende um parque com cerejeiras e bordos, e uma horda de piqueniqueiros, grupos menores famílias ou amigos, e muitos grupos de escola. Os antigos imperadores diziam que só não podiam controlar as enchentes do Kamô e os monjes de Hiei, mas naquele dia o Kamô estava bem rasinho, mesmo estando na época das cheias do degelo; suponho que a tecnologia moderna tenha superado os antigos imperadores com uma barragem de concreto... (os monges de Hiei foram todos mortos por Oda Nobunaga ainda no final do século XVI) Um pouco depois do rio, vimos um mercadinho que parecia interessante e entramos nele para comprar bentôs pro piquenique, de frutos do mar e de rio, e legumes caipiras cujo nome não aprendemos. (Ao lado tinha uma loja especializada em bentô, mas caríssima e a maioria dos que vendia era de carne.)

A loja de bicicletas ficava ao lado de uma estação de trem que levava para os subúrbios ao norte, e (diziam os cartazes turísticos) o monte Kurama, cujo mosteiro é a casa natal do reiki. Thuin ainda se sentiu tentado a pegar o trem, que acabava num funicular, mas o tempo de ida e volta seria mais de hora e meia, então deixamos pra lá; ao lado, também, havia uma estação da Keihan, o terceiro sistema de trem urbano principal de Quioto além da JR e do metrô, subterrânea. Pegamos as bicicletas, que eram meio gastas mas ok pelo preço e tinham ao invés de corrente uma trava para a roda de trás, e seguimos em frente. Ao lado do lugar de alugar tinha também uma loja de vender bicicletas com umas lindíssimas, e baratas até; se estivéssemos no final da viagem teríamos comprado uma pra arrastar pro Brasil.
A estrada de ferro de Kurama

No caminho até o Pavilhão de prata, passamos boa parte do tempo ao lado da Universidade de Quioto; uns predinhos baixos, sem nada de especial. O que era bastante especial, pelo menos quando contrastado com o que já tínhamos visto do Japão, era a quantidade de árvores, seja nos terrenos da universidade, dos templos que salpicavam o caminho, ou até na própria calçada. A calçada, um pouco mais larga do que a maioria no Japão e com um meio-fio alto (que também não é comum por lá) era o território preferido das bikes, principalmente as pilotadas por tiazinhas. E ninguém reduz a velocidade quando chega perto de pedestre; toca trim trim a buzininha, e o pedestre pula pro lado antes que seja atropelado.
Jardim do pavilhão de prata. Sim, isso é tudo areia grossa.

Logo antes de chegar ao pavilhão, nos perdemos um do outro, e ficamos ali nos procurando por uma boa meia hora. Quando enfim nos encontramos, apeamos (a muvuca era grande demais pra se prosseguir de bike; havia algumas almas corajosas que o faziam), deixamos as bicicletas encostadas numa ameixeira (só as bikes realmente megablaster, que eram muito poucas, eram acorrentadas; a maioria tinha a mesma travinha que a nossa), e subimos a rua de lojas até o pavilhão de prata, que é um templo e, como todo templo alvo de peregrinação eou turismo, tem que ter uma rua de lojinhas de tudo que é tipo de coisa. Comemos uma batata no palito em espiral na ruazinha, nada de mais mas ok, e um obentô melhorzim. O Pavilhão estava lotado, com fila para entrar e galere andando em fila indiana pelos jardins (não se pode entrar nos três prédios do complexo, pequenos, a não ser que você seja convidado especial dos monges). O jardim é realmente tresbundante, completamente zen, com os planos de areia arada, bambus, e pinheiros nas encostas de morro, e bambuza e moitas de chá e camélia bloqueando vistas mais amplas; igualmente perfeito é o pavilhão de prata propriamente dito, que não tem nada de prata; havia um plano originalmente de fazê-lo de prata, assim como o Kinkaku-ji é de ouro, mas alguém deve ter se dado conta de que iam ter que ficar polindo a prata todo santo dia, e nem monge zen tem essa paciência toda. O pavilhão é de madeira bruta com verniz fosco e taipa de pilão pintada em cal viva. Um par de moças próximas a nós na fila não sabia da história, e olhou, confabulou, e chegou à conclusão de que era prata mesmo, dava pra ver.
Óbvio que é de prata, não?

Na saída do ginkaku-ji, inda compramos um saquê na lujinha da saída, e fomos fazer piquenique na promenade dos filósofos, um caminho comprido pelos pés dos morros que cercam Quioto a leste, todo ao longo de um canal estreito com cerejeiras plantadas dos dois lados. Percorremos o caminho inteiro de bicicleta, sujando um pouco a bike e as calças de lama, o que talvez não seja o jeito certo de percorrer um caminho de filósofos zen, mas ok pra nóis. Devolvemos as bicicletas, e pegamos o trem da Keihan, de longe mais tchuns trem urbano que pegamos no Japão, estações com arte que nem as do metrô de SP, sinalização com toda a informação da JR mas sem a confusão, tudo com cara de novo. A estação em que saltamos, já no subúrbio, era um pouco mais distante do que a estação da JR, esta mais basicona mas com pilastras pintadas em vermelho pra imitar os torii.
Arte no "metrô" da Keihan

Magia.
Pura.
Sim, porque Fuximi-Inari-Taixa (o grande santuário de Inari, deus do comércio, em Fuximi) sói ser o santuário de Inari com os torii todos formando corredores pela montanha. Passa-se pela rua de comércio (sushi de bacon, uma delícia), pelo templo exterior e aposentos dos sacerdotes, que vão do medieval ao banalmente moderno, pela cavalariça onde uma estátua de cavalo tem sela e arreios riquíssimos, e entra-se nos corredores que serpenteiam por todo o morro de Fuximi. Os torii são ex-votos; além dos grandões que forma os corredores, há menores pendurados em varais volta e meia em sub-santuários. Pros menores, há tabela de preços padronizados afixada volta e meia; os maiores acho que são da teoria "se você tem que perguntar você não pode pagar." No meio do caminho montanha acima - sim, este foi o dia do exercício e subimos até o alto, que é o verdadeiro santuário interior, com ares prehistóricos e Inari encarnado numa pedra -  casas de chá servem de lugar pra descansar e tomar um cházim e sopinha. Se embaixo, assim como no Ginkaku-ji, uma multidão meio que sabota os ares místicos do lugar, depois de percorrido o primeiro quilômetro ela some quase inteira, e andamos pelos corredores de torii quase sozinhos no lusco-fusco do entardecer; voltamos já de noite, e teve uma hora em que uma moça que estava perdida começou a nos acompanhar.
Magia.

Na volta, pegamos a estação da JR direto até Quioto; poderíamos ter pego direto até Osaca, no outro sentido, mas melhor ir até Quioto e pegar o trem expresso que ir pingando até Osaca num trem tipo metrô. Chegando na estação Osaca, fomos atrás de um lugar pra comer por lá mesmo, já que não acharíamos perto do hotel, e acabamos indo parar num sushi de esteirinha. Bastante bom, com vários sabores que não conhecíamos, e com a atração de ser a porcaria dum sushi de esteirinha. Com direito a sushi de natto, sushi de lula fermentada...

Não sei quem fui que comeu isso tudo.